quinta-feira, 28 de agosto de 2014

NA SUA TERRA, COMO SE CHAMA CHUP-CHUP?


Li um poema singelo na Internet, cujos versos trazem referências a uma sobremesa que marcou minha infância. Acredito que meu primeiro trabalho foi ser vendedor de chup-chup. Eu era bom na produção de sabores exóticos: abacate, goiaba, manga. Frutas comuns no meu quintal, que se transformavam em suco concentrado e em vitaminas com leite para, depois, serem ensacadas, congeladas e vendidas para os vizinhos. Esses chup-chups pertenciam à classe dos melhores, com preço diferenciado, um pouco acima do valor cobrado por aqueles feitos com pozinho. Na grade da varanda, a placa indicava que, na Rua Santiago, no bairro Jardim América, havia um refrescante sabor para espantar o calor. Ganhei uns trocados com o comércio autônomo por um tempo, até que apareceu a concorrência, poucas casas acima da minha. 

Dona Duca fazia chup-chup com maestria. A meninada passou a frequentar a casa de grade azul com mais animação, porque a doceira tinha mãos habilidosas no tacho, de onde surgia uma goiabada maravilhosa. Todo mundo sabia quando havia doce novo por causa do cheiro que perfumava o bairro. Especialista no fogão à lenha, ganhou fama também servindo suco congelado em saquinhos. O predileto dos fregueses era o de amendoim com leite, que tirou a minha clientela e “matou” minha brincadeira como negociante. Deixei de ser comerciante para ser consumidor das delícias da Dona Duca. Virei habitué diário e tive até conta lá, chegando a pagar as dívidas mensalmente.  

Na Rua Washington Luís, no bairro Santa Ângela, onde passei boa parte da infância e da adolescência, recordo-me da diversão da criançada que parava a via após o horário escolar. Brincávamos de rouba-bandeira, de queimada, de estrear o novo toco, de polícia pega ladrão, de bola no pilo, de golzinho, e não havia ninguém que não ficasse suado da ponta dos cabelos aos pés. A hidratação era certa na casa da Dona Ana, uma senhora de cabelos curtos, bem brancos, que usava óculos, que nos vigiava pela varanda. Quando subíamos a escada da casa, ela já sabia o que desejávamos: chup-chup, que estava nos esperando na geladeira azul, na cozinha. O de morango fazia mais sucesso. Mas havia sabores variados para nossa alegria e “fino” paladar. 

Recentemente, com a ajuda de amigos do Facebook, fiz uma pesquisa inusitada: postei uma foto com a imagem de vários chup-chups perguntando – Na sua terra, como isso se chama? De todos os cantos do Brasil, e até da França, recebi as respostas do vasto vocabulário para a sobremesa gelada. Em muitos locais, é comum usar o nome chup-chup, como em São Paulo, e em várias cidades mineiras. Em Professor Jamil (GO) e em Uberlândia (MG), é laranjinha. Em Brasília, em Juazeiro do Norte (CE) e em Manaus (AM), o doce é batizado de dim dim. Em Belo Horizonte (MG), em Ouro Preto (MG), em Presidente Prudente (SP), em Londrina (PR) e em Feira de Santana (BA) chamam de geladinho ou de geladim. No sul de Minas, em cidades bem próximas, há uma diferença interessante: em São Lourenço é chupa-chupa, e em Pouso Alegre é gelinho. Já no norte do país, em Macapá (AP) e em Belém (PA), é chop. Lá por aquelas bandas, mas na região Nordeste, no Piauí, é dida. Nos municípios do Espírito Santo e do Rio de Janeiro e em Santa Maria (RS), virou sacolé. O nome que achei mais estranho é o de Maceió (AL): flau. Em Sete Lagoas (MG), prevalece o mineirês que deixa tudo no diminutivo: suquinho – título também usado em São Luís (MA). E lá de Paris veio a denominação internacional: Ce sont des glaçons (cubos de gelo). E na China? Nem dá para entender, mas meu amigo original de lá escreveu que é %&9.Todos concordam que, no fundo no fundo, indiferentemente da designação, é muito bom degustar esses sabores congelados, que viraram poesia, por Carlos Soares:

Sobremesa saborosa
Feita com muito carinho
É chamada chup-chup
Sacolé ou geladinho,
Pode ser também dindin
Ou então chama gelinho.

Picolé artesanal
Preparado num saquinho
Vários sabores de fruta
Bem gelado e docinho
O sacolé é demais
Só presta bem geladinho.

2 comentários:

  1. Na minha região, em aguas formosas interior de Minas é chamado de Kimel, ninguém quase escutou esse nome.. Também ja ouvir falar de brasinha.

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  2. Eu sou de Águas formosas, na região do vale do Mucuri e região do vale do Jequitinhonha é Kimel mesmo.

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