domingo, 25 de setembro de 2016

ESTE MUNDO DE DEUS

Arquivo pessoal de Babá Couto

Dizem que o uirapuru é a ave que tem o canto mais belo entre todos os pássaros. Uma lenda conta que os outros passarinhos se calam quando o maestro da floresta resolve soltar o gogó. O papo é de gente entendida, os chamados ornitólogos. Porém, os corações apaixonados proclamam em poemas a cantoria dos canários, a melodia das graúnas, o assobio dos curiós. Outros vão e voltam como as andorinhas, que sempre encontram um pouso para cantarolar no fim das tardes. Poesia de uirapuru, supõe-se, não tem fama na literatura, porque sucesso nas paradas é o sabiá, que foi coroado como majestade. E isso ninguém pode negar. Muito menos a Babá Couto, que já perdeu as contas de quantas vezes teve que atender a pedidos e entoar a canção de Roberta Miranda nos bailes da vida.

Quem conhece a Babá já puxou a lembrança pela memória. Quem ainda não teve o privilégio de ouvi-la cantando, pode fechar os olhos e imaginar. A referência é a suavidade, a doçura, a delicadeza. O assobiar de um pássaro capaz de soltar a voz em uma apresentação exclusiva ou ave solidária que sabe dividir o microfone com outras vozes, para que todo o coral possa fazer sucesso. Nos cânticos sacros ou nas mais famosas da música popular tupiniquim. Ela tem amplo repertório que se encaixa em seu tão belo dom. Habilidade tão especial que a apelidaram por causa da semelhança física com a cantora famosa, a compositora d’A Majestade, o Sabiá. E Babá nem precisa fazer cover da Roberta, mas tem gente que se confunde quando cruza os olhos com ela na rua.

Certa vez, depois do feriado de 7 de Setembro, véspera da saída do pagamento, data que mudou o tal aguardado quinto dia útil, a ansiedade era a companheira de Babá desde o café da manhã. Naquela sexta-feira, não havia cantoria que a animasse, pois precisava de atenção para acertar a matemática do cotidiano. Essa conta não podia ser perdida. Afinal, os boletos aguardavam destino em cima do aparador da sala. Pareciam irmãs serelepes querendo sair de casa para um passeio. Copasa, Cemig e Telemig. Cada uma vestida com um preço diferente. Lá se foi a historiadora, professora e cantora, desfilar a alegria na Praça da Matriz. A tiracolo, as mocinhas que já estavam atrasadas por causa da independência brasileira. Descendo a Rua Dr. José Gonçalves, os pensamentos viajavam. O filme na cabeça retratava o passado. Tudo que sempre esteve guardado no inconsciente parecia voltar à tona. Desejava ir para onde Deus quisesse naquela caminhada em tempos de calor. Contudo, o destino era certo. O banco a esperava.

No caminho, na muvuca do ir e vir dos moradores de Bom Despacho, no zum zum zum dos vendedores na porta das lojas, um mendigo abordava quem tivesse a bolsa maior. Acostumado a criar frases de efeito para convencer a doação, ora pedia dez centavos para ajudar na compra do leite das crianças ora implorava por qualquer quantia que pudesse ser ofertada pelo senhor e senhora cidadão. Se alguém desse corda até de maneira sutil, ele já soltava o bordão: pode ser cinco centavos ou qualquer nota de um milhão, se você me der dez reais, fará feliz meu coração.

A rima interrompeu o sentimento interno de Babá, que queria uma rede, um lugarzinho que não fosse aquela confusão. Aquela voz, muda, de um pardal, perdido, sem que ninguém notasse, foi cativante. Até engraçada para aquele momento. Ela parou, esboçou um sorriso largo. O sujeito ficou abobalhado. Parou infinitos segundos diante da imagem que via. Não estava acreditando que alguém o olhasse nos olhos. E ele sabia que era alguém importante. Suspirou e emendou a esmola: Dona Roberta Miranda pode me dar um tostão, mas o que eu quero mesmo é ouvir da senhora uma canção.

A súplica mudou de nome, transformou-se em homenagem. O pardal fazia sinfonia para o sabiá. Babá chorou. Certamente, aquela curta viagem foi linda.

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