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domingo, 23 de outubro de 2016

POR ONDE ANDAS?


Fui desafiado a responder uma questão muito simples. Uma dúvida curiosa que não me deixaria preocupado se eu fosse uma pessoa normal, mas a simplicidade se tornou complexa por causa de uma das minhas características em relação à literatura. Afinal, a pergunta envolve um comportamento que tenho, diferente da conduta da maioria das pessoas que tem o hábito da leitura de livros. Com apenas uma palavra, eu seria capaz de dar o veredito. Entretanto, como diria a gíria dos pensadores contemporâneos: “fritei horas”. E foram muitas voltas do relógio para alcançar um resultado satisfatório.  Vou parar de enrolar e revelar o motivo pelo qual estou escrevendo estas linhas.

A curiosidade do emissor da mensagem era: se você acordasse dentro do cenário do último livro que você leu onde estaria? Nada complicado. Bastava ir na cabeceira da cama, folhear as páginas para relembrar qual era o local ou paisagem, caso a memória estivesse fraca. Mas para mim surgiu uma agonia, uma dificuldade de apenas fazer o rápido relato, citar qualquer palavra que viesse à mente, pois eu não tenho uma mini cômoda decorando o quarto, ao lado do leito do sono. Possuo um armário de quatro prateleiras, abrigando uns 50 livros, de diferentes estilos. E a última obra literária que li não reina solitária na lista, já que leio cinco ao mesmo tempo. Talvez, até mais, já que enjoo, perco o interesse, mudo de gosto, compro, faço empréstimo, estudo textos para aplicar em sala de aula. Confesso que estou lendo pouco, porque a concorrência com a televisão é forte. Todavia, dedico tempo à leitura no mesmo instante que fico grudado na telinha. Estranhamente, consigo dar atenção aos dois. 

Excluindo o que estou lendo para o universo acadêmico, ultimamente, minhas leituras estão direcionadas a interesses que não conversam entre si. No sábado passado, em poucas horas, li “Um livro para ser entendido”, de Pedro HMC, que trata da temática LGBT. Não há um lugar específico para ser citado. O texto é explicativo, fala de preconceito, de sexo, de relacionamentos, de amor, de tribos, de religião, de gírias. Tudo com humor. Se for para não deixar a pergunta no vácuo, diria que o local é um armário – dentro ou fora dele –, pois o autor fala sobre a falta de coragem que muitos homossexuais têm em se assumir para a sociedade. 

Paralelamente, estou mergulhado nas 750 páginas da biografia do grande Michelangelo, que viveu na Itália. Degusto cada informação emocionado, já que o artista é uma inspiração em tudo que fez e deixou de legado. Gostaria de acordar em todos os cenários que ele esteve presente, principalmente, em Florença ou em Roma, cidades que pulsam história, locais que merecem ser visitados diversas vezes, pela arte, pela gastronomia, pela cultura. Poderia estar também na Capela Sistina, no Vaticano. Se quero viajar e não posso no momento, transporto-me até lá por meio das letras que contam a vida de uma das maiores personalidades que já estiveram neste planeta.

Há um tema que me encanta: a cultura islâmica. De tão distante, parece que até não existe. Fascina-me o comportamento do povo, suas características, suas comidas, suas relações pessoais, sobretudo, as amorosas. Para entendê-los, divido a leitura entre “Nas fronteiras do Islã”, de Sérgio Túlio Caldas, e “Sobre o Islã”, de Ali Kamel. Na mente, o cenário é um país que está me conquistando, o Uzbequistão, mas também percorro as estradas do Paquistão, os mistérios de Jerusalém. De lá, retorno para o Brasil, pois no meio dessa viagem, recentemente, li “Memórias Inesquecíveis de uma Cidade Sorriso”, da bom-despachense Juraci Antônia da Silva Pimentel. Acordei na paisagem que mais conheço, para onde gosto de ir sempre, minha casa, minhas raízes, nos cantinhos de Bom Despacho.

               
E você? Para onde iria com a ajuda dos livros que está lendo? Gostaria que me contasse abaixo nos comentários. 

domingo, 3 de agosto de 2014

ESCREVER DÓI


Tive um branco. Fiquei horas olhando para a tela do computador para escrever a crônica da semana. Normalmente, dedico-me a este texto às terças-feiras. Escrevo, escrevo, leio, releio, acrescento informações, mudo o título, reviso e encaminho ao jornal na sexta-feira, para que ele possa ser diagramado. E, ansiosamente, espero a edição impressa para saber se deu tudo certo. Porém, confesso que faltou inspiração. Mas acredito que foi o estresse do dia a dia que me bloqueou. Pensei em pessoas, histórias, fatos da cidade, casos de viagens, piadas, fofocas, momentos diversos. Não saía nenhuma linha que prestasse. Por isso, resolvi relatar essa angústia.   
Às vezes, o dedilhar nas letras do teclado flui naturalmente, transformando os pensamentos em palavras. Converso mentalmente comigo mesmo e as frases aparecem. Afinal, tento ser um contador de histórias. E isso facilita o ofício da escrita. Em outras situações, dá suor, cansa, dá uma peleja sair do primeiro parágrafo. Sofro, porque escrever é um parto. E dói. Acho que o inverno me provoca reações adversas. Particularmente, não me sinto bem nesta estação, que traz o frio, e numa loucura do clima, ainda trouxe chuva. Que loucura do mundo! Fico melancólico, triste, nostálgico. 
Coincidentemente, a semana que passou tinha uma data marcante - o Dia do Escritor -, comemorado em 25 de julho que, neste ano, infelizmente, não teve muito confete, pois perdemos quatro autores fantásticos: o colombiano Gabriel García Márquez, o baiano João Ubaldo Ribeiro, o paraibano/pernambucano Ariano Suassuna e o mineiro Rubem Alves. Talvez, eles levaram a musa da inspiração para o além, e impediram que eu, o aspirante às letras, ficasse sem ideias. Mais triste ainda foi perder os três brasileiros num curto espaço de tempo. Todos morreram em julho de 2014.
Tenho admiração e me inspiro nos quatro escritores. De Gabo – apelido de García Márquez dado pelos amigos -, sou fã número zero. Ele é o meu predileto, estando sempre no topo de qualquer lista que existir sobre as minhas preferências pessoais. Sou tão apaixonado por seus livros que me espelho no seu método de trabalho. De João Ubaldo, guardo lembranças da infância, quando a TV exibiu uma minissérie baseada no livro de sua autoria - O Sorriso do Lagarto. Estava num momento de descobertas, de leituras mais densas, quando entendi como se transformava um livro em imagens. Logo depois, vi a obra A Casa dos Budas Ditosos virar peça de teatro. E esta relação de narrativas me estimulou a gostar de literatura, de cinema, de televisão, de teatro, cujas inspirações criativas bebem na fonte do maior defensor da cultura regional brasileira, fato constante no legado de Suassuna. De Rubem Alves, tenho frases guardadas e copiadas num caderno vermelho, que se tornou meu companheiro e ajudante nas horas de desespero, quando faltam vocábulos para minhas crônicas. Seus textos com temáticas espirituais ajudam a aliviar a angústia da escrita.

A literatura perdeu mestres das palavras. Entretanto, nas estantes da vida, suas heranças textuais serão eternizadas, para aqueles que os amam e também para aqueles que ainda irão conhecê-los. Peço desculpas por este texto triste, mas foi angustiante traçar esta conversa por causa do obituário apresentado. Não tive ideia melhor. Contudo, fico feliz por chegar ao final desta prosa, revelando alguns dos autores que fazem parte da minha formação cultural. A eles, eu devo um muito obrigado. E que eles nos inspirem sempre.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

JAQUELINE, A MENINA LEITORA

        Sérgio Murilo, Nelson Correa e Jaqueline

Sentado numa diversificada roda de convidados de uma festa, que se encontraram para comemorar o aniversário de um grande amigo, cometi alguns pecados quase imperdoáveis para os amantes da “boa” gastronomia. Comi salgadinhos fritos, esbaldei-me no refrigerante, lambuzei a boca na torta doce. No cenário, de frio típico bom-despachense, ainda saboreei um caldo de mandioca para “esquentar o peito”. O aniversariante, conhecido popularmente como Nelsinho, celebrava seus 30 outonos com a família, com os vizinhos e com algumas pessoas mais íntimas, mas eu fui o surpreendido durante o encontro. Lá pelas tantas horas da noite, à mesa, sentou-se uma menina com laço enfeitando o belo cabelo afro. De óculos, parecia uma dessas adolescentes introvertidas, que ficam caladas prestando atenção na conversa de adultos. Ela era diferente. E posso dizer que fiquei boquiaberto depois que começamos a conversar. 

Jaqueline é filha do Sérgio Murilo e da professora Claudete. Lembrei-me do passado, quando passeava pelas escolas, das reuniões da Conferência de São Vicente de Paula, das missas das 19 horas na Igreja da Matriz; sua mãe caminhava grávida pela cidade. Quinze anos de história se passaram num flash. Eu a tinha “visto” no útero. E percebi como não conseguimos controlar o tempo. O embrião havia crescido e amadurecido. Desenvolta, a garota tinha assunto: bandas, filmes, celebridades. Porém, tudo culminava nos temas com  que nós dois possuíamos mais familiaridade – séries de televisão e livros. Ela lê pelo menos um por semana, dos desconhecidos aos populares, inscritos nas listas dos mais vendidos. Nem haveria dúvida se ela me contasse que já conhecia também vários clássicos da literatura brasileira. Afinal, a mãe é um poço de sabedoria, ensina, principalmente, Língua Portuguesa, e o pai é um ser humano admirável.  

Estranha é essa relação entre os conterrâneos de uma cidade. Mesmo não tendo intimidades, temos um fio que nos une de alguma maneira. Minha ligação com a Jaqueline remonta ao meu pré-escolar no Egídio de Abreu, onde fiquei apaixonado pela primeira vez, pois era alucinado pela professora que fazia estágio na minha sala. A estagiária, que também se chamava Jaqueline, era uma negra linda, com traços memoráveis, de uma beleza somente comparável às musas do carnaval brasileiro. Jovem, trilhando os rumos do magistério, deixou-nos muito cedo, retirada daquele convívio por causa de um trágico acidente. Perdi meu primeiro amor estudantil. Jaqueline, a adolescente, é sobrinha da Jaqueline, a professora. De propósito, o nome é uma linda homenagem feita pelos pais ao batizar a filha com as lembranças do sorriso inesquecível de uma das mais simpáticas mulheres nascidas na nossa cidade. Tia e sobrinha não se conheceram, mas têm muito em comum. 

A jovem Jaqueline contou durante a festa que é candidata a vereadora mirim por um dia, numa eleição que vai escolher os representantes para a missão entre todas as escolas de Bom Despacho. Todavia, não tinha esperanças de ganhar por não ser a concorrente mais popular. Eu disse que ela podia pensar em estratégias de marketing, numa plataforma de propostas, num discurso para torná-la mais notória. Quem sabe assim conseguiria o posto tão desejado? Se eu fizesse parte do corpo de eleitores, ela já teria meu voto por causa de suas ideias, de sua inteligência, de sua simpatia, de sua alegria de viver. E, sobretudo, pela quantidade de livros que já havia lido, algo que nossos muitos políticos de verdade nem sonharam em ter acesso. À minha orientação, Jaqueline, muito cortês, respondeu com a  artimanha de uma pessoa predestinada a ser estadista, que será ela mesma, que não mudará sua essência durante o pleito. E eu espero que, realmente, assim seja para sempre. Uma personalidade única, para fazer deste país um lugar bem melhor quando o assunto for a coletividade. Depois de conhecê-la, deu para acreditar que ainda haverá crianças que serão o futuro desta nação. 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

LIVRO MACHU PICCHU: ROMANCE TRÁGICO DE UMA COMÉDIA BRASILEIRA


Você já escolheu um livro pela capa? Acredito que este seja um dos gestos mais comuns para os apaixonados por leitura e que não estão preocupados com o conteúdo e, sim, com o prazer de ler. Comigo isto acontece sempre. Recentemente, estava lendo uma revista, quando apareceu uma entrevista com o músico, compositor e escritor Tony Bellotto falando de seu mais atual lançamento, o livro Machu Picchu. E já de pronto fiquei interessado por causa do fascínio que a montanha sagrada me provoca. No entanto, só adquiri o texto por coincidência do destino.

Fui à Livraria Leitura comprar um guia turístico e na prateleira estava a obra do guitarrista do Titãs, que quase caiu no meu colo, pedindo-me para ser levado. Viciado que sou, comprei. E numa sentada devorei o conteúdo que surpreende pela falta de coerência com o título da obra.

O romance é ambientado no Rio de Janeiro, mostrando personagens comuns em conflitos do cotidiano de um casamento de 18 anos, que passa por uma crise de valores. A história é de um casal que se questiona sexualmente, buscando experiências numa era em que a virtualidade permite sensações novas e até mistérios que podem ficar em segredos. Porém, a trama, apesar de ser dramática, traz um humor sarcástico e reflexivo, com cenas de uma família carioca que passa por situações rotineiras de uma cidade grande, com seu caos normal. E o que eles vivem é mais cômico do que triste.

Editado pela Companhia das Letras, em 2013, Machu Picchu narra as aventuras de Zé Roberto e Chica, que estão presos num congestionamento, em pontos diferentes da capital fluminense. Neste tempo parado, fatos inesperados fazem com que o casal reflita sobre suas vidas aparentemente banais.

E os personagens são muito caricatos: um homem que se masturba no escritório vendo o strip-tease de uma garota pelo skype; uma mulher insatisfeita no trabalho, mas que topou ser amante do colega com sexualidade duvidosa; um jovem maconheiro com problemas com o traficante; uma criança de 12 anos com poderes quase paranormais; uma ex-esposa maluca que já foi modelo internacional e até massagista de pousada; e uma filha perdida e ausente. E ainda tem uma policial que aparece de repente e que é hilária, entre outros seres que parecem existir somente na nossa imaginação.

Machu Pichu é um retrato da sociedade brasileira que se esconde atrás de seus desejos, fingindo a perfeição cobrada por convenções do nosso tempo. Podia ser uma tragédia, mas o livro é para rir da realidade. E relaxar sem gozar. 

Para encontrar Machu Picchu
Autor: Tony Bellotto 
São Paulo, 1ª edição, 2013

Onde comprar:
Submarino: R$ 24
Saraiva: R$ 13,00 versão e-book
Americanas: R$ 24,90

Mensagem do autor: 

Clique na foto e assista ao vídeo







sábado, 24 de novembro de 2012

VICIADO EM LIVROS


Preciso desabafar!
Fazer uma sessão de terapia – virtual pelo menos.
Alguém aí para ler a história de um VICIADO?

Tem algo que me consome por dentro. Muitos chamariam de doença. Outros de consumo estimulado pelo capitalismo. Procurei definições no dicionário, no google. De brincadeira mesmo só para escrever este desabafo psicológico. Reconheço a partir de agora que sou um viciado. Existe uma força estranha que me leva a fazer loucuras quando entro numa livraria. Se vejo um sebo, entro em convulsão. Se os sites fazem descontos, perco o sono analisando todas as listas disponíveis. Sou um viciado em livros por dois motivos: para ler um por semana e para tê-los numa imensa biblioteca. Porém, falta-me tempo para dedicar à leitura intensa e, atualmente, espaço para guardá-los.

(Pausa: suspiro. Este texto nasceu após o ocorrido, conforme relato abaixo.)

Aconteceu um fato engraçado comigo. Saindo do trabalho com uma sacola cheia de alimentos (duas latas de suco, um pacote de arroz integral, macarrão instantâneo, um pote de mel e biscoitos) e ainda três livros - daqueles que foram emprestados e devolvidos meses depois e que, com certeza, não serão relidos, por pura falta de prática de repetição – senti que seria assaltado ao ver um sujeito estranho na rua. Meu pensamento deu uma viajada para a reação à abordagem: meu caro, por favor, leve tudo, dá pra você comer, te dou um dinheiro, mas não leve meus livros, porque eles não serão úteis a você.

                                                          Livros que prometi ler em 2012

Nada rolou. Nem assalto, nem negociação. Exceto uma paranoia que motivou a pesquisa: nome da doença de quem é viciado em livros.

 Não encontrei respostas concretas, apenas umas suposições interessantes:
1)      Bibliófilo – quem coleciona livros
2)      Livrólatra – dependente de livros
3)      Bookaholic – o termo em inglês para doentes com livros
4)      Nerd – quem gosta de ler demais

Não acreditei muito nisso, no entanto, estou pensando seriamente em procurar tratamento. Na última visita que fiz à Livraria Travessa, no Rio de Janeiro (quando vou lá gosto de ser abençoado pelo Cristo, bater um papo com Iemanjá na praia e entrar na Travessa, em qualquer ponto da cidade), saí com cinco livros. Em uma semana, li três, sendo que ao longo do ano, comecei a leitura de outras sete ou doze obras, sem prazo de término até então.  Estão todos na cabeceira da cama. E não estou com vontade de retomar nenhum, porque já quero comprar um exemplar indicado numa resenha que li por aí.

Minha ânsia foi ampliada ao ver, numa revista, a imagem de milhões de livros amontoados formando uma estrutura de casa. É essa a ideia de arquitetos holandeses que criaram na pequena cidade de Spijkenisse, Holanda, uma biblioteca em formato de montanha de livros. No local, funciona um café e uma área de leitura protegidos por uma pirâmide de vidro, que garante a luminosidade para os leitores e é o principal atrativo para revitalizar o centro da cidade. Desejei muito ter algo parecido. Meus livros estão assim...empilhados pela casa.

                                                         © Jeroen Musch

Estou melhor. Coloquei pra fora este sentimento.

Vou ali ler. E desfazer um preconceito. Eu devia ter dado os livros ao possível assaltante. Sem dúvidas, eles seriam mais úteis a ele, porque eu não pretendo relê-los. E o sujeito teria acesso a histórias que marcaram a minha vida.

O que alivia é saber que tem gente como eu:
Viciados em livros - Facebook

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

UM LUGAR NA JANELA: RELATOS DE UMA VIAGEM



Viagem e literatura são duas misturas como chocolate e morango. Combinação perfeita de sabores. Se fôssemos pensar em almas gêmeas, eu diria que um é a metade da laranja do outro. Cada viagem que faço levo na bagagem um livro. E, normalmente, volto com uns dois do lugar visitado.

Numa curta passagem pelo Rio de Janeiro, li na revista de bordo da TAM uma entrevista com a escritora Martha Medeiros. Eu sou fã dela sem ter lido nenhum livro. Sempre achei que o que ela escreve se parece com o que eu desejo escrever quando crescer. Num caderno vermelho que guardo lembranças, ela está em destaque ao lado de outros pensadores: são muitos recortes de jornais, da coluna dela n’O Globo. Mas livro mesmo, até então nada. Perdi a virgindade em algumas horas, após ler a reportagem de capa, em que Martha fala de sua obra, de sua vida, e do seu lançamento atual: Um Lugar na Janela – relatos de viagem. Comprei na primeira oportunidade quando avistei uma Livraria da Travessa. (em breve falo da minha relação com esta loja fantástica).

O livro que relata momentos de vida da autora foi meu companheiro nesta viagem. Li na praia, olhando para o mar de Ipanema e dentro do avião, do metrô e do ônibus. Cometi um crime: usei marca texto em vários trechos, mas não resisti. São frases para copiar e postar em pensamentos via twitter.

As crônicas de Um Lugar na Janela não foram escritas para servir de dicas de viagens, porém com a linguagem serena de Martha, cada frase nos remete aos detalhes de cada local em que ela esteve. Literalmente, é uma viagem a cada capítulo. Rodei o mundo em poucas horas de leitura e fiquei com vontade de pegar a estrada de novo.

Em um trecho das páginas iniciais ela resume, pra mim, o que eu teria pela frente, mas também o que penso sobre pegar a mochila e sair por aí: “Viajando é que descobrimos nossa coragem e atrevimento, nosso instinto de sobrevivência e capacidade de respeitar novos códigos de conduta. Viajar minimiza preconceitos. Viajantes não têm partido político, classe social, time de futebol, firma reconhecida no cartório, senhas decoradas na cabeça. Reciclam-se a cada manhã, quando acordam – e acordam, que benção, sem a tirania do despertador.”

Martha Medeiros é um Midas das palavras. O que ela escreve, transforma. Tem fama mundial. E o que mais encanta é saber que ela é uma mulher, mãe, trabalhadora, que gosta da simplicidade, da novidade, das marcas deixadas pelas viagens. Martha, sua literatura, suas palavras, este livro, serão inesquecíveis neste momento, em que viajei para encontrar comigo e as minhas emoções. Nem era isso que eu buscava, no entanto, eu viajei neste livro. Coisa que nenhuma maionese é capaz fazer.

O livro: motivos pelos quais comprei

Editora L&PM, 192 páginas, R$ 32. Martha Medeiros comenta suas aventuras no Marrocos, na América do Sul, na Europa, no Japão, nos Estados Unidos, no Brasil. E ela mesma descreve o motivo da obra, na entrevista dada à revista da TAM: “Não tive a intenção de fazer um guia. Desejo apenas compartilhar minhas experiências de viajante. Sou viciada em viajar porque gosto de imprevistos. Sinto-me mais estrangeira em situações prosaicas do dia a dia do que quando estou deslocada.”

domingo, 21 de outubro de 2012

PERFIL: RAFAEL FARIAS TEIXEIRA - AUTOR DO LIVRO ENTRE IRMÃOS



Gosto de gente. De conhecê-las. De saber do que se trata na sua intimidade. O jornalismo dá esta oportunidade. Primeiro recebi o material de divulgação do livro, a editora me enviou uma cópia. Li em quatro sentadas: quando chegou, na véspera de um sono, na ida e na volta de uma viagem a São Paulo. O autor me adicionou no facebook, ansioso para saber se eu já havia lido, em que parte estava, quando eu iria publicar uma resenha. Conversamos amenidades. Mais do que uma entrevista, a primeira publicada neste meu blog, eu queria compartilhar o que me deixou curioso após a leitura de Entre Irmãos. Admiro escritores. Quem tem esta coragem de se assumir ao mundo pelas palavras e encarar o mercado editorial.

Rafael Farias Teixeira é jornalista, tem 26 anos, nasceu na terra que deixa saudades – Salvador (BA). Talvez tenha nascido no local certo, terra de talentos, berço da nossa gente, mas saiu em busca de desafios. Estudou na Universidade de São Paulo e, atualmente, é repórter da revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios e também, é claro, é escritor. Escreve ainda para o blog Só na Social – que trata de assuntos “falados e compartilhados” nas redes sociais.

Entrevistar alguém pela internet não dá a emoção das respostas faladas, do olhar. #sqn no caso de Rafael. Entrevistar para fazer um perfil é quase uma invasão. E eu fui invasivo para, seguramente, você leitor perceber o quanto este jovem escritor é incrível.

Quais suas inspirações literárias?
Tudo é literatura, logo, acredito que qualquer coisa pode servir de inspiração. Acho que sou influenciado por muitas coisas e por isso não rejeito nenhuma delas.

Por que escrever um livro?
“Porque não” é que deveria ser a verdadeira pergunta. Gosto de pensar que a coisa que faço melhor na minha vida – e também aquilo que me dá mais prazer – é contar histórias, é escrever. Então desde que comecei a exercer esse meu lado escritor, nunca houve dúvida de que escrever e publicar um livro seria um dos grandes objetivos da minha vida.

O que aconteceu contigo para que as letras ganhassem corpo e se transformassem em um livro? Quem é você nesta história?
Algumas pessoas já me vieram pergunta o quanto autobiográfico esse livro é, e no começo eu achava que era bastante. Sem falar que é inevitável ter um pouco do autor em cada personagem. Mas a história inteira é uma mistura de lembranças, experiências pessoais e de outras pessoas que eu também tive oportunidade de escutar. Ele é bem maior do que a minha própria história. E como toda boa história, não há nada mais natural do que ela se transformar, se perpetuar e se propagar pela palavra escrita.

Por que um livro com temática gay?
Não penso que seja um livro de temática gay. Ninguém nunca chamou os romances de Jane Austen ou de Ernest Hemingway de livros com temática heterossexual. Não foi só porque eu escolhi contar uma história que envolve personagens gays ou que discute as dificuldades atuais de ser gay que esse romance se resume a apenas isso. Há muitas outras discussões e há um valor nessa obra que ultrapassa rótulos.

É fácil ser gay? Sofre ou sofreu preconceito – na rua, na chuva, na sua casa? O que tirou de lição destes momentos e colocou no livro?
Ser gay não deveria ser nem fácil nem difícil. Deveria ser apenas isso: ser. Com todas as consequências que vierem dessa realização. Mas obviamente não vivemos em mundo perfeito e ser gay não é visto como uma coisa “natural”, então a discriminação ainda é muito comum. Posso dizer que sofri preconceitos pela minha vida e aprendi muito com essas situações. Todas as experiências e aprendizados do livro, porém, são apenas daqueles personagens. Todos ali reagiram de uma forma completamente única e própria de cada um.

Quem não te conhece, precisa saber o que de você? E quem te conhece, mas você esconde um segredo – qual é?
Que adoro escrever. E geralmente nunca escondo nada. Conto tudo e compartilho demais.

Gosto de mostrar como é o processo de escrita dos autores: qual é o seu? Como fez para escrever este livro?
Atualmente estou meio errático com meu processo criativo. Geralmente escrevo excertos que surgem do nada para cenas e episódios que eu gostaria que existissem no meu texto. Guardo todas nos seus respectivos arquivos e uma hora sento para completar os buracos e espaços em branco. Com o “Entre Irmãos” era mais ou menos assim, com a diferença que o escrevi em uma época em que tinha uma quantidade de tempo livre maior – estava na faculdade e apenas estagiava. Então me educava a tirar um momento para escrever e reler o que eu escrevi todos os dias. O plano é que eu volte a esse estado de organização rapidamente!

O que te faz feliz? Por que sair de Salvador? Não gosta do axé? Ou se cansou e agora prefere as baladas animadas de São Paulo?
Ser – finalmente – escritor, escritor mesmo, com nome na capa, biografia na orelha, me faz muito feliz. Saí de Salvador porque ela parecia pequena para o que eu queria realizar, mas ainda assim é uma cidade incrível e que faz parte de quem eu sou como pessoa. Não posso dizer que sou fã de axé e atualmente troco qualquer balada animada de São Paulo por um bom jantar, uma mesa de bar ou uma ida ao cinema.

sábado, 20 de outubro de 2012

ENTRE IRMÃOS: INTRIGA SEXUAL EM NOME DO AMOR


Algumas histórias instigam à leitura desde o trecho escrito na orelha do livro. Uma capa elaborada, o comentário na contracapa. Normalmente, escolhe-se uma obra assim, por estes motivos. Ou muitas vezes pela fama do autor. No caso de Entre Irmãos, de Rafael Farias Teixeira, publicado pela editora Multifoco, o enredo é o atrativo: a convivência de Maurício, Fernando e Beatriz, irmãos diferentes, unidos pelo sangue e por segredos.

A morte de Maurício gera conflitos e esclarece as diferenças dos personagens, cujas trajetórias de vida são semelhantes à de uma família que encara a aceitação de um filho assumido homossexual. O texto é vendido desta maneira, uma literatura GLS, mas não é restritivo ao público gay, mesmo diante de alguns capítulos que mostram a sexualidade intensa de Fernando, um jovem publicitário que sai de casa por causa das brigas com seu irmão mais velho e com os pais.

Entre Irmãos possui uma narrativa quase poética contemporânea, ou seja, um texto livre, frases curtas, com versos, sem rimas, numa sequência gostosa de ler, porque estimula a curiosidade. É um livro que mostra a aceitação e a vida de um gay, os ciúmes dos irmãos pela preferência dos pais, os mistérios escondidos entre as paredes do lar e, sobretudo, as nuances do amor.

Os personagens Maurício, Beatriz e Fernando se revelam com a presença de Ricardo, um homem misterioso que aparece na trama, no leito de morte do seu melhor amigo – Maurício. Ricardo provoca reviravolta na vida dos três.

Contudo, é uma frase de Maurício, que dá o detalhe para esta intriga: como narrador, ele conta que “essa é a história do que acontece com minha morte e depois dela. Essa é uma história de irmãos. E minha participação é bem maior do que parece”. Isso é o clímax.

Só que em alguns momentos, a leitura excita. Denota pensamentos eróticos. Porém, isso é um mero jogo de palavras para levar o leitor à reflexão. Quando Fernando descreve o que pensa sobre o amor ele revela sua fragilidade, mesmo fingindo que agüenta a situação do ser gay, sendo um touro indomável e forte, e tendo que enfrentar o preconceito dentro de casa, na rua, dele próprio.

Destacam-se estas palavras: “As pessoas sempre planejam amar. Mas, quando o amor realmente chega, ninguém tem muita ideia de quais serão seus planos. Eu sempre presumi que eu precisava me apaixonar desesperadamente de todas as pessoas com quem criei algum tipo de relacionamento. Eu precisava amar porque não seria justo ficar com uma pessoa sem o fazer...Eu tenho estas imagens de como deveria ser ter um grande amor, um grande e único amor que faria todas aquelas princesas sossas da Disney morrerem de inveja...Amor não foi feito para pessoas como eu, porque simplesmente tudo não passa de ideias perfeitas que sobrevivem de tramas elaboradas demais, da nossa própria imaginação, e fora, no mundo real, murcham, contraem-se e gritam estridentes até desaparecerem deixando mágoas.”

Este livro desnuda o amor. E que ele mata. Provoca a morte, quando não se está preparado para o sentimento mais nobre do humano. Amor não é apenas final feliz de novela. Entre Irmãos é revelador, cheio de lágrimas, de tristeza, no entanto, traz esperança para aqueles que estão em busca de paz. Na vida, na casa, no pensamento, no amor. Leitura sem diversidade sexual. Conto para virar filme.

O autor
Rafael Farias Teixeira nasceu em Salvador, na Bahia, em 1986. Jornalista, já escreveu para as revistas Galileu, Época São Paulo e Pequenas Empresas & Grandes Negócios. “Entre Irmãos” é o seu primeiro romance publicado, que também está no facebook.  

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