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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

MAIORIDADE: UMA LONGA ESTRADA



No sábado à noite, na rua principal da farra em Bom Despacho, encontrei um amigo de infância que já não residia na Cidade Sorriso há alguns meses. Taylon havia enfrentado o vestibular e eu ainda estava em dúvidas quanto ao futuro acadêmico. Ele estava em busca de companheiros para dividir um apartamento, para montar uma república de estudantes na capital mineira. Respondi prontamente que seria um deles, mesmo não tendo certeza da permissão da minha mãe. Afinal, naquele dia de um julho frio, a morte do meu pai completava uma semana. Era 1998.

Apesar da boa memória, não me recordo exatamente a data em que saí de casa. Levei os móveis, os eletrodomésticos, para Belo Horizonte em um fim de semana; mudei-me de mala, cuia, livros, a imagem de São Judas Tadeu, a saudade do meu quarto, da minha família, as roupas, numa quarta-feira seguinte. Cheguei à noite no local que seria minha nova residência durante os próximos seis meses. Lembro-me que era em agosto, disso não tenho dúvidas. E já se foram 18 anos. O tempo passou muito rápido e desde aquele dia várias histórias aconteceram. A chegada da maioridade da minha mudança é uma delas, pois, além das lembranças, há aquela ansiedade para o que virá. Será que está na hora de mudar novamente?
                
A chegada desse período tem mexido com meus pensamentos. Nostalgia, futurologia, uma vontade de praticar coisas que só prometo e vou deixando nas gavetas. Limpei algumas semanas atrás e fiz o desapego de objetos guardados da época em que escolhi Beagá como um lar. Quero novidades. Outras histórias, sem me esquecer daquelas que me trouxeram até aqui.

Recentemente, meu aluno, Lucas, ficou impressionado com algumas frases que pronunciei na sala de aula, ao mostrar o que é propaganda cívica. Aquela ideologia para que valorizemos nosso país e seus símbolos como o Hino Nacional e a bandeira. Ele quis saber os motivos do meu patriotismo, quase exagerado, já que, segundo a constatação dele, a atitude é incomum na atualidade. Concordo, mas aprendi certa vez o porquê do meu amor ao Brasil.

Amo a nossa pátria, porque amo as minhas raízes, a minha cidade, o local onde nasci. Foi através de uma lição de um mestre que admiro, o professor e jornalista Carlos Felipe Horta. Numa conversa em que eu dizia que gostaria de desbravar o mundo, ele me provocou perguntando: qual o significado do nome Bom Despacho? Não soube responder, envergonhado. Assim, Carlos Felipe me deu uma missão e um dos maiores ensinamentos que já recebi na vida: “antes de conhecer outros países, descubra a sua própria história, a sua origem”. Sempre que tenho oportunidade, faço o dever e vou descobrindo um pouco dos nossos ancestrais, dos casos da cidade da Senhora do Sol, dos mistérios que ainda não foram revelados.

Mesmo vivendo há tanto tempo longe da minha terra, tenho um sentimento de pertencimento incrível. Quanto mais viajo, faço turismo, convivo com a biografia de Belo Horizonte, mais tenho a certeza que moro é em Bom Despacho. Levo ao mundo o que sou como bom-despachense. Está no sangue, nos valores, no coração. Fisicamente não estou caminhando pelas ruas onde cresci. Porém, cada cheiro, cada pessoa, cada momento que recordo, permanecem nas estradas da minha história. Nesses 18 anos, de um aniversário diferente, o melhor presente é a certidão de nascimento, é saber que tenho uma origem, um DNA feliz.  

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A PRIMEIRA VEZ


Gosto da provocação que me leva a refletir. Perguntas fora de lógica, em momentos inapropriados, interrogações instigantes para que eu possa me expressar além da obviedade comum a todo ser humano. As dúvidas daqueles que desejam conhecer meus pensamentos são estimulantes. Por outro lado, como profissional das indagações, prefiro ser surpreendido com a resposta a obter informações vazias quando tenho de fazer alguma entrevista. Curioso por natureza, questiono aquilo que desconheço, leio nas entrelinhas, ouço o que não foi revelado, e assim fico agindo como um policial investigador. Modestamente, tenho o dom de inquirir o entrevistado para que ele apresente suas verdades, suas opiniões. Por isso, o ofício do jornalismo. 

Apesar disso, incomoda-me aquelas entrevistas chamadas de “rapidinhas”: um lugar?, sorvete ou macarrão?, felicidade é?, uma comida?, amor ou sexo?, um sonho?. Mudo de canal, pois eu gostaria de conhecer o entrevistado por algo que nunca foi questionado. Ouvi-lo falar daquilo que se conversa na mesa de bar, dos assuntos proibidos – religião, sexo e política. Rapidinhas mais secretas, detalhes mais subjetivos, polêmicas e contradições da sua história pessoal. E é na reciprocidade que lido com isso, pois da mesma maneira que faço perguntas diferentes, eu quero mostrar ao interlocutor aquilo que ele não espera de mim, mas que é a minha realidade, a minha essência. 

Perguntaram-me num momento de descontração: qual foi a última coisa que você fez pela primeira vez? Fiquei em silêncio para dar retorno à dúvida, acreditando que a resposta estaria na ponta da língua. O filme rodou na mente para relembrar o passado. Refiz caminhos no cérebro, os olhos procuraram passagens recentes no teto vazio, a sobrancelha ficou arqueada em dúvida, nada saía da boca, as mãos se cruzaram nervosas. Suspirei em pânico pela ausência de palavras. Respondi que no próximo encontro, eu apresentaria uma lista. E a fiz depois de recordar de uma conversa estimulante.

Há alguns anos, uma amiga nutricionista me incentivou a um desafio. Sistematicamente, eu deveria me propor a aprender algo novo, para movimentar o cérebro, para sair da caixa do comodismo, para afastar doenças que vão definhando a memória, para ser um sujeito melhor, com mais referências culturais. A partir desse propósito, coloquei metas semestrais, dizendo que eu buscaria qualquer conhecimento, sobretudo de coisas que sempre tive vontade de fazer/estudar/conhecer, mas por falta de tempo não me dedicava. Entretanto, nessa busca objetivei me dedicar também a assuntos que não me interessavam como forma de estar aberto a novidades que poderiam surgir. 

A pergunta martelava. Fui tirando dos pensamentos as lembranças para chegar à conclusão que a última coisa que fiz pela primeira vez foi iniciar estudos do idioma francês. Estou usando a Internet para tal, ouvindo cantores populares na França, lendo a história do país para descobrir um universo fantástico. Até o momento só sei falar alguns termos mais comuns, como bom dia, obrigado, homem, mulher, ela, ele, eu, gato, rico, maçã, laranja. Estou me sentindo uma criança descobrindo as possibilidades da comunicação. Agora em outro idioma. E com esse espírito infantil sigo na caminhada para sempre acrescentar algo ao meu crescimento pessoal. Questionaram-me no singular, querendo uma única resposta. Porém, tenho tantas primeiras vezes para relatar...A conversa ficará para outro encontro, outros versos, quem sabe numa primeira vez que cruzarmos nossos olhos? 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

PARA RECORDAR...


Sábado à tarde, sozinho em casa, deitado na cama vendo televisão, fico buscando inspirações para escrever uma crônica. Enquanto o tempo voa, fico pensando em coisas do passado. Algumas memórias retornam. A nostalgia vira companhia. Encontrei uma definição para o que eu faço quando dedilho casos na página em branco. Sou um cronista memorialista. Gosto de falar do período que passou, das histórias antigas. Afinal, tenho estado ocupado no presente com prioridades que nem sempre são satisfatórias. Trabalho, trabalho, trabalho. Um pouco de estudo, um excesso de estresse. Para amenizar, uso a Internet para ocupar a cabeça vazia. Santa tecnologia. Por causa dela, revivi um misto de emoções ao ler um texto publicado no site www.buzzfeed.com. A página trazia uma lista de lembranças dos anos 1990, dizendo que só quem era adolescente à época poderia recordar daqueles momentos. Eu fui um deles. Lendo a lista, lembrei-me de vários momentos. Compartilho contigo algumas recordações:

1) Todo mundo respondia cadernos de enquete, na expectativa de saber algum segredo do colega, mas, na verdade, queríamos conhecer quem estava apaixonado;

2) Chocolate Surpresa era uma sensação, sempre com uma coleção interessante de imagens de bichos, de paisagens;

3)  Os cadernos eram enfeitados com decalques de figurinhas do chiclete Ploc Monsters;

4) As meninas pintavam o cabelo com papel crepom e ficavam uma semana com as mãos manchadas. O mesmo papel era usado como toalha de mesa nas festas de aniversário;

5)    Ter uma agenda era comum, mas o legal era colar nela papéis de bombons e as mensagens das balas IceKiss;

6)  Brincávamos de corredor polonês na escola e fazíamos um estilingue de gominhas amarelas para acertar papéis dobrados nos colegas;

7) Moda era usar jaqueta da Hard Rock ou da Planet Hollywood e ter uma mochila da Company;

8)  A série “Barrados no Baile” era imperdível aos domingos. Durante a semana, “Melrose”;

9) Saímos correndo da escola para assistir “Changeman” e “Jaspion” na TV Manchete;

10) Na escola, tínhamos a borracha e a lapiseira que trocavam de pontas, a caneta de doze cores e uma maleta com canetinhas, lápis de cor, aquarela;

11) Brincávamos com mola maluca, fluflu – um emaranhado de plástico amarrado -, e de minigame;

12)   Com a chegada dos CDs, era status ter um discman;

13)   No dia anterior ao aniversário, ajudávamos a embrulhar as balas de coco naquele papel cheio de franjinhas. Para enfeitar, era feito um arranjo em formato de cascata com elas;

14)   As coleções mais comuns eram: embalagens de cigarros e de sabonetes, papéis de carta, latinhas de refrigerantes e cervejas;

15) Os presentes eram enfeitados com fitilhos. Os papéis de embrulho não poderiam ser rasgados, pois as mães guardavam para uma necessidade futura;

16)  Tínhamos de ler livros da Coleção Vagalume;

17) Para começar os namoricos, matávamos aula para brincar de “Caí no poço”. Também brincávamos de “passar anel”, “queimada”, “roubar bandeira”, “adedanha”, “polícia pegar ladrão”;

18)  Para o guarda-roupa ficar cheiroso, eram espalhados nas gavetas uns sachês enrolados em filó;

19)  Todo mundo se engasgava com a bala soft;

20)  Quem nunca passou cola na mão, não sabe como é trocar de pele.

Que tal reviver algumas sensações do tempo que está na memória?


A lista pode continuar...Faça a sua também. 

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