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domingo, 16 de fevereiro de 2014

ESTAS HISTÓRIAS FANTÁSTICAS...


Estas histórias fantásticas...

Anos atrás, perdido numa livraria em BH, passeando entre as prateleiras para esperar o tempo correr, fui atraído por um livro de lombada preta e capa verde, com título instigante: O Grande Livro do Folclore. Só pelo conteúdo e atiçado por minha intensa curiosidade sobre a origem de tudo, adquiri a obra escrita pelo jornalista, folclorista e professor, Carlos Felipe Horta, um escritor que é referência no assunto e também um exemplo de vida que lutou contra a ditadura no Brasil. Tive a oportunidade de conhecê-lo em outra ocasião, quando me ensinou algo inesquecível. Perguntei por onde começar a escrita de um livro. Ele sorriu, tirou os óculos, olhou intensamente para o meu nervosismo e disse: “pesquise a sua história, do seu povo, dos seus antepassados, da sua cidade”.

Depois disso, recebi um e-mail com uma apresentação engraçada falando do Forró do Zé de Anísio. Um personagem lendário do município, que causava medo quando eu era criança e morava no bairro Santa Ângela. Ele andava com um porrete, tinha um bigode másculo, como se fosse um típico português, uma cara amarrada. A mensagem contava os segredos do forró, onde só entravam senhoras e senhores da terceira idade, que não podiam dançar de chinelos e que saboreavam a famosa farofa servida na mão, vendida por um real cada porção. Enviei aquelas informações para o jornalista Maurício Kubrusly, do Fantástico, para que o Zé de Anísio virasse reportagem do quadro Me Leva Brasil. Eles gostaram da sugestão e quiseram saber se em Bom Despacho havia mais coisas para mostrar. Começou ali o resgate de lembranças e a chance de colocar em prática o ensinamento do professor Carlos Felipe.

De pronto respondi: “um grupo que dança catira, um congado espetacular, um dialeto africano, um quilombola, uma das mais belas igrejas do país, uma produção de peças de decoração com pedras, o melhor sorvete de abacaxi. E tem até uma urna funerária indígena”, revelei. O pessoal logo apareceu na cidade sorriso e tive a chance de entrar na casa de shows localizada na Rua São Paulo para descobrir que o Zé, com seus 80 anos, era um senhor divertido, contador de casos, que colecionava tudo que lhe vendiam ou davam de presente. Lá dentro, vi uma máquina para matar cupins, ferramentas rurais de vários modelos, uma cadeira de barbearia, que servia de descanso para o porteiro, e também a bacia onde a farofa circulava no salão. Nas paredes, cartazes engraçados para a boa convivência entre os forrozeiros.

Naquela ocasião, também visitei Dona Fiota, uma das guardiãs do vocabulário da tabatinga.  Em sua casa, tomei café e descobri a importância de se preservar a memória de nossa história. Infelizmente, a conversa foi curta, mas com grandes recordações das lições que ela dividiu conosco, sentada no passeio, de lenço amarrado na cabeça, ao lado de seus filhos e netos.


Por estas duas personalidades, e tantas outras de tamanha representatividade, é que nossa cidade é incrível. Temos muito que mostrar ao mundo, enchendo o peito para contar dos produtores de leite, dos imigrantes do passado e seus descendentes, dos artesãos que vendem sua criações na feira de sábado, dos doceiros e quitandeiros, dos líderes religiosos, dos escritores e pesquisadores, dos professores nativos e daqueles que chegaram com a faculdade, dos músicos, dos artistas, dos empreendedores que fazem de nossa terra um local admirado e memorável. Precisamos dividir nossas tradições e culturas, pois como afirma Carlos Felipe: “se um dia o folclore – que é a cultura popular -, não existir mais, a alma do povo também será extinta”. 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

QUEM CONHECE, NÃO ESQUECE. JAMAIS!

Charge do Clayton - Blog do Eliomar

Todo mundo se conhece na Cidade Sorriso ou sabe de algo que aconteceu com alguém destas bandas do centro-oeste mineiro. O João é da Maria. O Joaquim é da Tereza. A Marta é filha da Antônia, que já foi do Calabouço e que agora é do Arraial. Nossas denominações tão aconchegantes permitem que os quase 46 mil habitantes sejam lembrados por apelidos, pelas famílias tradicionais, pelas escolhas profissionais, pelos bairros, pelas turmas de carnaval. Amigos tão saudosos e animados que se reúnem também fora de época, deixando as histórias das famosas sedes da folia bom-despachense ficarem na memória.

Este pequeno pedaço de terra cercado pelos rios Picão, Lambari e São Francisco deixa saudade naqueles que tomam do nosso marcante cafezinho. Não existe sabor em outras cercanias. Talvez seja por causa do café, ou do carnaval, quem sabe do leite, que sempre há alguém que conhece gente de Bom Despacho. E é impressionante viajar pelo mundo e ouvir estas lembranças que nós deixamos no coração de quem nos visita. Nas redes sociais da Internet até existe uma comunidade que se chama “Bom Despacho vai dominar o planeta”. Fico pensando: de onde saiu tanto conterrâneo? Minha avó tem uma expressão que pode explicar este dilema: “se você vai a algum lugar e não tem ninguém de Bom Despacho, tenha certeza, que ali tem pelo menos você, que representa nossa cultura e nosso povo”. E nesta reunião de desconhecidos, certamente, alguém terá amizade com algum morador do ex-distrito de Pitangui.

Já ouvi um causo que parece conversa de pescador. Se é verdade, só outro causo pode solucionar o mistério. Mas vou registrar. Vamos lá? Era uma vez...Um amigo de um amigo que estava de férias em Londres, lá nos domínios da Rainha Elizabeth. O rapaz passeava pela capital inglesa de metrô, tirando fotos turísticas e soltando piadas em português. Ou seria na língua da Tabatinga? Era um tal de “uai, sá. Uai, sô!” Frase emendada com um “ela é cenosa demais”. E a dupla ainda tirava sarro dos nativos: “tipura o tiploque da ocaia e depois dá uma tipurada nos maveros da loirinha, disse com jeitinho sacana. E os amigos ficaram rachando os bicos de quem ficava panguando dentro do trem. Quando de repente escutaram um som familiar. Lá na frente, gritaram: Ôôôôôôô Bom Despacho!!! Te conheço lá do Bairro de Fátima. A família real da Grã-Bretanha não se manifestou sobre o domínio do nosso dialeto que já invadiu uma das grandes potências mundiais. O certo é que chegamos lá.

Dizem que até o Papa Francisco se manifestou durante uma missa na Praça de São Pedro, quando um fiel no meio da multidão chamava a atenção da Vossa Santidade. Durante a cerimônia, o papa espichava o pescoço, ajeitava os óculos para melhorar a visão, cochichava aos coroinhas querendo saber quem era aquele sujeito alto, com uma miscigenação alemã, africana e portuguesa. Ele sabia que conhecia aquele destacado católico de algum lugar. Após a benção, o argentino foi abrindo caminho entre o povo até encontrar o homem que o intrigava e perguntou: - O senhor é de Bom Despacho? O fulano ficou assustado com tanta assertividade e gritou: - Milagre! Nosso papa é vidente! Humildemente, o discípulo de Cristo explicou: - Milagre é o senhor que vai precisar para consertar este corte de cabelo, porque está ruim demais. Conheço o barbeiro que tem este estilo. E ele é lá de Bom Despacho.

Parece piada, só que não é, apesar de ser engraçado o caso verídico em que a Cidade da Senhora do Sol foi citada nas manchetes nacionais. Desde então ficamos mais famosos, afinal tudo que é bom tem uma pitada de algo salgado para equilibrar o gosto. Este episódio queimou o filme de Bondês no Programa do Ratinho, outros dizem que foi no sofá da Hebe. O fato é triste, mas não estraga a nossa auto-estima, pois o importante é que até a dama da televisão brasileira também mencionou de onde somos para o Brasil. Contam que ela, ou o apresentador mais polêmico da TV, recebeu o cantor Leonardo nos estúdios do SBT. Entre as conversas fiadas, o goiano é questionado se algum dia tomou um calote. Sertanejo e de palavras rasgadas mandou na bucha: - tomei, e foi lá em Bom Despacho. Eu não acredito muito, porque por aqui a gente não toma calote. A gente é catiolado. Assim a grande audiência dos programas repercutiu do Oiapoque ao Chuí, colocando estas estâncias no anedotário brasileiro. Depois disso não podem dizer que nunca ouviram falar daqui.

Esta prosa pode se estender por páginas e páginas, porque bom-despachenses, todos são ilustres, sendo reconhecidos pela hospitalidade, tranquilidade e pelo jeito festeiro. Somos citados nas rodas de macumba para que os feitiços funcionem. Lembrados quando mandamos recados pelo correio, real e virtual. E nos livros de história que contam a vida de um ilustre governador de Minas, o Olegário Maciel, que nasceu e foi batizado na paróquia da Matriz. Talvez não haja município das gerais que não faça uma homenagem pra gente, e para o político, dando seus nomes para ruas e avenidas. Esta jovem centenária é histórica, tem história, tem memória. Tem gente. Conhece-se Bom Despacho quando se fala de seu maior patrimônio, o povo, nós. Os outros que nos conhecem e relatam nossos contos. Temos nome e sobrenome, somos e pertencemos aos antepassados, aos que nos cercam, ao que fazemos, principalmente, nossos valores e amores. Isso que nos faz sermos diferentes ao mundo, que sabiamente nos reconhece.

P.S.: para você que não domina o linguajar de Bom Despacho, explico:
Tipura: observe
Ocaia: mulher
Tiploque: calçado
Cenosa: engraçada
Mavero: seios
Panguando: vacilando
Catiolá: roubar
Rachando os bicos: rir alto

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