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domingo, 27 de outubro de 2013

MINHA DEVOÇÃO A SÃO JUDAS TADEU

Como de costume, o mesmo hábito de tanta gente que passa pela Praça da Matriz, entrei na igreja para ouvir um pensamento divino e refrescar o calor daquela tarde de primavera. Precisava de inspiração para tirar algumas minhocas da cabeça adolescente que fervilhava de dúvidas e sentia desejos de mudanças. Como qualquer outro jovem, eu também ansiava por respostas rápidas para aqueles sentimentos desconhecidos: trocar de cidade? Abandonar os estudos? Perdoar e esquecer brigas familiares? Buscar um caminho profissional em outros cantos? Permanecer em um amor platônico? Dar chance para quem gostava de mim? Confiar em Deus?

Sempre que podia, sentava em frente ao Santíssimo Sacramento à procura de uma voz que dissesse o que fazer naquele momento de amargura. Rezava. Chorava. Ouvia os pombos procurando um vazio espaço, entre os vitrais quebrados, para fugir do clima aconchegante da construção sagrada. As aves queriam liberdade e eu queria entendê-la. Sentir-se livre era uma meta constante, porém eu não sabia como conquistá-la no coração. Ele estava preso aos pecados da mente. Foram distrações bobas para quem estava aprendendo a viver. Umas coisas de “aborrecente”.

Era outubro. No pequeno altar esquerdo da igreja, aos pés da imagem de Nossa Senhora das Graças, um amontoado de papéis voou, espalhando-se pelos ladrilhos que sustentavam o famoso órgão usado como auxiliar da voz potente do professor Elvino. Não havia ninguém para testemunhar o fato. Não ventava lá fora. Educadamente, fui recolhendo os santinhos de orações sem dar importância para as imagens, contudo uma frase no rodapé chamou a atenção: imprima mil exemplares ao alcançar uma graça. Naquele instante, aquele sopro misterioso provocou meu encontro com a fé. Curioso e esperançoso para que meus problemas fossem resolvidos rapidamente, sentei ali mesmo no degrau para rezar para o santo das causas perdidas. Nascia minha devoção a São Judas Tadeu.

Quem seria aquele santo com o nome do traidor, desconhecido pela minha pequena referência cristã, mas com tamanha força para acudir os aflitos e desesperados? Não importava quem ele era. Subitamente já estava aliviado daquelas angústias e, em poucos dias, sua imagem estava instalada numa cantoneira, iluminada por velas, acima do travesseiro que tanto ouvia minhas dores e secava intensas lágrimas. Ganhou lugar nas súplicas durante a oração do terço, nos pedidos de melhorias, na divulgação do evangelho.

Fui salvo por ele e, em gratidão, compartilho um pouco de sua história. Representado por diferentes visões artísticas e lendas contadas pelos fiéis, o santo, que foi apóstolo, traz um machado nas mãos, ou um cajado, para mostrar como ele se tornou um mártir: morreu decapitado por afiado instrumento quando anunciava as verdades de Jesus, no dia 28 de outubro do ano 70, na Pérsia, atual Iraque. No outro braço, um livro para simbolizar um dos seus mais fortes instrumentos de pregação: a palavra.

São Judas Tadeu conforta os desanimados, os sofridos, os que se distanciam da fé, por meio do seu testemunho, desde quando foi iluminado em pentecostes, e saiu pelo mundo levando os ensinamentos de Cristo. Sou devoto a ele por amor e, quem sabe, pela intervenção de Nossa Senhora do Bom Despacho, que me concedeu e concede tantas bênçãos. Em 28 de outubro, lembremos deste maravilhoso seguidor do Filho do Altíssimo.

História de São Judas Tadeu
(texto publicado no site da Igreja de São Judas Tadeu, em Belo Horizonte, no Bairro da Graça. http://www.saojudasbh.com.br/Conteudo/5/

São Judas Tadeu era apóstolo e parente consanguíneo de Jesus.

Nasceu na Galileia. Seu pai foi Alfeu ou Cléofas, irmão de São José e um dos discípulos a quem Jesus apareceu depois da ressurreição, no caminho de Emaús.

Sua mãe, Maria Cléofas, prima-irmã de Maria Santíssima, esteve ao pé da cruz juntamente com Maria Madalena.

São Judas Tadeu tinha quatro irmãos: Tiago Menor, apóstolo, José, chamado o Justo, Simão, segundo bispo de Jerusalém, e Maria Salomé, mãe dos apóstolos São Tiago Maior e São João Evangelista.

São Judas Tadeu foi um dos mais fervorosos apóstolos. Pregou a doutrina do Divino Mestre, em meio aos maiores sofrimentos e perseguições, na Judéia, Samaria, Iduméia e, principalmente, na Mesopotâmia, onde converteu inúmeras almas ao cristianismo.

São Judas Tadeu selou sua fé com o martírio, na Pérsia, aos 28 de outubro, dia em que a Igreja festeja o grande apóstolo. Seus restos mortais foram depositados na Babilônia.

Quando os maometanos se apoderaram da Pérsia, as santas relíquias foram levadas para Jerusalém. No ano 80, Carlos Magno fêlas transportar para a Basílica de São Saturnino, em Tolouse, na França. Mais tarde, foram transladadas para a Basílica de São Pedro, em Roma, onde inúmeros peregrinos vão venerá-las.

Desde os primeiros tempos, foi São Judas Tadeu invocado como patrono nas grandes necessidades, porém, por causa da inominável traição de Judas Iscariotes, o nome de Judas caiu em tal desprezo e tornou-se tão odioso e difamado que o santo apóstolo ficou quase esquecido. Por isso quis Nosso Senhor reabilitar o bom nome desse apóstolo e Ele mesmo, em aparição à Santa Brígida, aconselhou-a que invocasse com grande confiança São Judas Tadeu (o amável, o amoroso), prometendo socorrer a todos que, com firme confiança, recorressem a esse grande Santo nos casos mais desesperados.

Um doutor da Igreja diz: “Entre os devotos de São Judas Tadeu, poucos são aqueles que, nas doenças, nas tentações, no desespero, no medo e na aflição, na calúnia e na maledicência, na pobreza e, mesmo onde toda a esperança parece vã, tendo implorado com fervor a intercessão de São Judas Tadeu, não tenham encontrado auxílio e alívio para os seus males”.

Oração a São Judas Tadeu
São Judas Tadeu, apóstolo escolhido por Cristo, eu vos saúdo e louvo pela fidelidade e amor com que cumpristes vossa missão. Chamado e enviado por Jesus, sois uma das doze colunas que sustentam a verdadeira Igreja fundada por Cristo. Inúmeras pessoas, imitando vosso exemplo e auxiliadas por vossa oração, encontram o caminho para o Pai, abrem o coração aos irmãos e descobrem forças para vencer o pecado e superar todo o mal. Quero imitar-vos, comprometendo-me com Cristo e com sua Igreja, por uma decidida conversão a Deus e ao próximo, especialmente o mais pobre. E, assim convertido, assumirei a missão de viver e anunciar o evangelho, como membro ativo de minha comunidade. Espero, então, alcançar de Deus a graça... Que imploro confiando na vossa poderosa intercessão. São Judas Tadeu, rogai por nós! Amém!

Ladainha de São Judas Tadeu

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Deus, Pai dos Céus, tende piedade de nós.
Deus, Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós.
Deus, Espírito Santo, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.
Jesus, filho de Deus vivo, tende piedade de nós.
Jesus, filho da Virgem Maria, tende piedade de nós.
Jesus, Mestre dos Apóstolos, tende piedade de nós.
Santa Maria, rogai por nós.
Santa Maria, Rainha dos Apóstolos
São Judas Tadeu, consanguíneo de Jesus, Maria e José
Apóstolo glorioso
Apóstolo perseverante
Verdadeiro imitador de Jesus
Amante da pobreza
Modelo de humildade
Símbolo da paciência
Lírio da castidade
Chama do amor divino
Estrela da santidade
Vaso da graça divina
Testemunho da fé
Terror dos infernos
Grande taumaturgo
Coluna da Igreja
Refúgio dos pecadores
Amparo dos necessitados e atribulados Especial padroeiro dos casos desesperados Abrigo seguro e patrono dos vossos devotos,
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Pelos merecimentos de São Judas Tadeu, nós vos rogamos, ouvi-nos, Senhor.
Pelas suas palavras e ações, nós vos rogamos, ouvi-nos, Senhor.
Pelos seus milagres, nós vos rogamos, ouvi-nos. Senhor.
Pelo glorioso martírio, nós vos rogamos, ouvi-nos. Senhor.
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos. Senhor.
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade nós, Senhor.
V - Rogai por nós. São Judas Tadeu.
R- Para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Amém.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

POSFÁCIO DE UMA RODA QUE VAI PARAR DE VIVER


Fiquei triste ao saber, recentemente, que a história da Livraria Roda Viva está chegando a seu capítulo final. A notícia mexeu com os sentimentos da minha infância. Rememorei bons momentos que passei na loja dirigida pelo meu mestre e amigo Padre Jaime. Um dos centros de conhecimento da cidade vai deixar saudade e vai fazer falta para a formação cristã e cultural da nossa gente. Ali aprendi muito sobre a Igreja Católica, tive acesso a livros incríveis e vivi algumas aventuras. Recordo muito das boas prosas atrás dos balcões que, pouco a pouco, vão ficando vazios, sem imagens, sem terços, sem livros...

Vibrei ao comprar, pela primeira vez com o próprio dinheiro, um livro indicado pelos conselhos do Padre Jaime. Sou viciado em leitura desde a época em que tinha acesso às bibliotecas e, sobretudo, ao acervo quase exclusivo da única livraria da cidade (ainda não existia a já findada Mr. Book). E eu podia mexer até naqueles empoeirados que ninguém queria, motivado por conversas sobre comunicação, orações, igreja, folclore e casos da cidade sorriso.

Desde os 12 anos de idade, investi muita mesada na aquisição de obras dos escritores de Bom Despacho: Jacinto Guerra, Lydia Alves de Moura, Sylvia Maria Ferreira Xavier, Zeni Ribeiro Hamdam, Geraldo Majela Couto Cançado, Geraldo Rodrigues da Costa, Mário Marcos de Morais, Sebastião Fernando de Paula Etelvino, Jaime Lopes Cançado. Conheci histórias apaixonantes apresentadas por estas mãos e, claro, tive minha primeira bíblia.

Lembro-me também de quando saí da livraria abraçado à imagem do meu santo de devoção. Fomos apresentados por acaso, quando peguei um folheto na Igreja da Matriz que trazia mensagens em homenagem ao servo de Jesus, especialista em causas impossíveis.. Nascia ali uma cumplicidade de fé e, logo, São Judas Tadeu passou a decorar meu lar, há mais de 20 anos, entre tantas mudanças de cidade, de casas, esperando meus pedidos e agradecimentos.

Certa vez, eu estava ajudando na Jornada Cristã de Adolescentes, no Salão São Vicente, quando apareceu o dono de um circo que estava montado na Praça da Estação, à procura do Padre Jaime. Ele queria comprar, insistentemente, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, para abençoar o picadeiro. Mas o padre estava numa palestra e recomendou: - Juliano tome a chave da livraria e faça a venda pra mim. Foi uma experiência incrível e tensa, devido à responsabilidade. Imagine errar o valor da padroeira do Brasil e ainda tomar um golpe financeiro? Chutei um valor (que foi quase correto, por uma falha de R$ 2 pra cima),  fiz cara de vendedor e, ao lado do tranquilo Padre Robson dirigindo o fusca cinza da paróquia, fui ao circo entregar a encomenda. Ali, exerci também a habilidade de vendedor de imagens sacras.

Dói pensar nesta perda, para mim e para a cidade. Preocupa-me saber que a maioria dos moradores não terá a oportunidade de viver o que eu experimentei na Livraria Roda Viva. São os tempos modernos, enfim, que devemos aceitar. Mas para encerrar esta conversa, só paira uma pergunta: onde poderemos comprar a imagem da santa que nos identifica e nos dá parte do nosso DNA? Não mais teremos a produção de Nossa Senhora do Bom Despacho, só ali encontrada. Desejo que ela abençoe os nossos outros momentos e caminhos que virão, após este doloroso final de livro. 

domingo, 12 de maio de 2013

E PARA VOCÊ, MÃE, OFEREÇO, FLORES!



 Gosto de contemplar jardins. Sou capaz de ficar horas olhando para as cores da primavera. Não há uma flor que escape às lentes da minha máquina fotográfica. Quando viajo, trago lembranças na mala e também imagens de uma das mais belas criações de Deus para ilustrar o álbum de recordações. Tudo é admirável: as formas, o perfume, o desabrochar, o conjunto de pétalas, de espinhos e de folhas. A espécie que combina com outra para enfeitar um vaso, um pedaço de terra, uma grande extensão dos palácios reais e castelos medievais. Talvez, vale a pena um único broto para deixar agradável o ambiente. Ou a reunião cuidadosa de um paisagista alucinado por diferentes tipos espalhados pelas fronteiras mundiais. Em cada canto, um encanto.

Flores são puras. Singelas. Magnificamente desenhadas no silêncio. São bonitas. Mesmo aquelas que se protegem em seus venenos. Pétalas sedosas demonstram carinho e são resistentes às intempéries do clima, florescem também em outras estações. Flores são sinais de frutos, mesmo que sejam apenas frutos da beleza levados pelo tempo, pelo vento. Elas deixam marcas. Gerações de filhos para germinar em outros jardins. Flores são mães da natureza, da vida.

Sendo mães, elas têm a missão de perpetuar novas fontes, deixando outros cheiros para embelezar o mundo. Quando são presentes significam abraços, amizade, lição, força, solidariedade, lembrança, amor. Com tantas semelhanças, seriam as mães de carne e osso metáforas do jardim humano cuidado pelas mãos do Grande Jardineiro? Mães são flores!  Mulheres que desabrocham filhos, frutos. Uma semente que precisa ser regada de carinho, de afeto e de cuidado constante.

É por este motivo divino que historicamente as mães são homenageadas com buquês, arranjos e vasos. Até ganham nomes fortes como Violeta, Margarida, Camélia, Verônica, Hortência, Dália, Azaleia, Rosa...Na primeira manifestação do mundo contemporâneo para celebrar uma data especial para elas foram distribuídos cravos brancos. Durante a primeira missa das mães, a americana Anna Jarvis, que perdera sua progenitora, enviou 500 cravos para uma igreja. Ela pediu que todos recebessem a flor e as mães ganhariam duas como forma de lembrança aos valores da família. A brancura do cravo simbolizava pureza, fidelidade, amor, caridade e beleza. Nascia assim, a justa comemoração do Dia das Mães nos Estados Unidos. Momento que foi adotado por outros países rapidamente.

Ofertar cravos se tornou um símbolo para a força da maternidade. Porém, os jardins só ficam mais bonitos porque florescem várias mães. Como as mães girassóis, que representam alegria, dignidade, glória, paixão e brilham no calor do sol. Ou as tulipas, resistentes, duráveis, fortes e temperamentais, contudo de amor fervoroso. E as orquídeas, que carregam um significado de desejo, perfeição e, até mesmo, pureza espiritual. São quase únicas em suas floradas. Imagine o poder de uma mãe crisântemo, que demonstra esperança e compreende os limites da vida, sendo a mão firme da família. Todas as mães possuem um perfume distinto, carregam em sua essência o amor, o sacrifício, a dor, a justiça, a beleza. E florescem em qualquer terreno.

À minha mãe, presto esta homenagem, ao dizer que ela é semelhante à violeta: roxa, rosa, branca, amarela, azul. São várias cores, de muitos estilos, aconchegante no jardim. Pode parecer de um amor frágil, contudo ela é resistente e firme, quando necessário, mas de uma candura inexplicável. Uma pureza quase tão macia quanto o veludo, cuja existência eu reverencio e digo: obrigado por enfeitar tantas janelas e proporcionar a seus filhos e netos, um colorido especial.

Para você mãe, que germinou um fruto ou cuidou de alguém no jardim, eu desejo que sejam feitos vários poemas, poesias e versos em agradecimento à sua existência. E que no seu caminho haja muitas flores.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

QUEM CONHECE, NÃO ESQUECE. JAMAIS!

Charge do Clayton - Blog do Eliomar

Todo mundo se conhece na Cidade Sorriso ou sabe de algo que aconteceu com alguém destas bandas do centro-oeste mineiro. O João é da Maria. O Joaquim é da Tereza. A Marta é filha da Antônia, que já foi do Calabouço e que agora é do Arraial. Nossas denominações tão aconchegantes permitem que os quase 46 mil habitantes sejam lembrados por apelidos, pelas famílias tradicionais, pelas escolhas profissionais, pelos bairros, pelas turmas de carnaval. Amigos tão saudosos e animados que se reúnem também fora de época, deixando as histórias das famosas sedes da folia bom-despachense ficarem na memória.

Este pequeno pedaço de terra cercado pelos rios Picão, Lambari e São Francisco deixa saudade naqueles que tomam do nosso marcante cafezinho. Não existe sabor em outras cercanias. Talvez seja por causa do café, ou do carnaval, quem sabe do leite, que sempre há alguém que conhece gente de Bom Despacho. E é impressionante viajar pelo mundo e ouvir estas lembranças que nós deixamos no coração de quem nos visita. Nas redes sociais da Internet até existe uma comunidade que se chama “Bom Despacho vai dominar o planeta”. Fico pensando: de onde saiu tanto conterrâneo? Minha avó tem uma expressão que pode explicar este dilema: “se você vai a algum lugar e não tem ninguém de Bom Despacho, tenha certeza, que ali tem pelo menos você, que representa nossa cultura e nosso povo”. E nesta reunião de desconhecidos, certamente, alguém terá amizade com algum morador do ex-distrito de Pitangui.

Já ouvi um causo que parece conversa de pescador. Se é verdade, só outro causo pode solucionar o mistério. Mas vou registrar. Vamos lá? Era uma vez...Um amigo de um amigo que estava de férias em Londres, lá nos domínios da Rainha Elizabeth. O rapaz passeava pela capital inglesa de metrô, tirando fotos turísticas e soltando piadas em português. Ou seria na língua da Tabatinga? Era um tal de “uai, sá. Uai, sô!” Frase emendada com um “ela é cenosa demais”. E a dupla ainda tirava sarro dos nativos: “tipura o tiploque da ocaia e depois dá uma tipurada nos maveros da loirinha, disse com jeitinho sacana. E os amigos ficaram rachando os bicos de quem ficava panguando dentro do trem. Quando de repente escutaram um som familiar. Lá na frente, gritaram: Ôôôôôôô Bom Despacho!!! Te conheço lá do Bairro de Fátima. A família real da Grã-Bretanha não se manifestou sobre o domínio do nosso dialeto que já invadiu uma das grandes potências mundiais. O certo é que chegamos lá.

Dizem que até o Papa Francisco se manifestou durante uma missa na Praça de São Pedro, quando um fiel no meio da multidão chamava a atenção da Vossa Santidade. Durante a cerimônia, o papa espichava o pescoço, ajeitava os óculos para melhorar a visão, cochichava aos coroinhas querendo saber quem era aquele sujeito alto, com uma miscigenação alemã, africana e portuguesa. Ele sabia que conhecia aquele destacado católico de algum lugar. Após a benção, o argentino foi abrindo caminho entre o povo até encontrar o homem que o intrigava e perguntou: - O senhor é de Bom Despacho? O fulano ficou assustado com tanta assertividade e gritou: - Milagre! Nosso papa é vidente! Humildemente, o discípulo de Cristo explicou: - Milagre é o senhor que vai precisar para consertar este corte de cabelo, porque está ruim demais. Conheço o barbeiro que tem este estilo. E ele é lá de Bom Despacho.

Parece piada, só que não é, apesar de ser engraçado o caso verídico em que a Cidade da Senhora do Sol foi citada nas manchetes nacionais. Desde então ficamos mais famosos, afinal tudo que é bom tem uma pitada de algo salgado para equilibrar o gosto. Este episódio queimou o filme de Bondês no Programa do Ratinho, outros dizem que foi no sofá da Hebe. O fato é triste, mas não estraga a nossa auto-estima, pois o importante é que até a dama da televisão brasileira também mencionou de onde somos para o Brasil. Contam que ela, ou o apresentador mais polêmico da TV, recebeu o cantor Leonardo nos estúdios do SBT. Entre as conversas fiadas, o goiano é questionado se algum dia tomou um calote. Sertanejo e de palavras rasgadas mandou na bucha: - tomei, e foi lá em Bom Despacho. Eu não acredito muito, porque por aqui a gente não toma calote. A gente é catiolado. Assim a grande audiência dos programas repercutiu do Oiapoque ao Chuí, colocando estas estâncias no anedotário brasileiro. Depois disso não podem dizer que nunca ouviram falar daqui.

Esta prosa pode se estender por páginas e páginas, porque bom-despachenses, todos são ilustres, sendo reconhecidos pela hospitalidade, tranquilidade e pelo jeito festeiro. Somos citados nas rodas de macumba para que os feitiços funcionem. Lembrados quando mandamos recados pelo correio, real e virtual. E nos livros de história que contam a vida de um ilustre governador de Minas, o Olegário Maciel, que nasceu e foi batizado na paróquia da Matriz. Talvez não haja município das gerais que não faça uma homenagem pra gente, e para o político, dando seus nomes para ruas e avenidas. Esta jovem centenária é histórica, tem história, tem memória. Tem gente. Conhece-se Bom Despacho quando se fala de seu maior patrimônio, o povo, nós. Os outros que nos conhecem e relatam nossos contos. Temos nome e sobrenome, somos e pertencemos aos antepassados, aos que nos cercam, ao que fazemos, principalmente, nossos valores e amores. Isso que nos faz sermos diferentes ao mundo, que sabiamente nos reconhece.

P.S.: para você que não domina o linguajar de Bom Despacho, explico:
Tipura: observe
Ocaia: mulher
Tiploque: calçado
Cenosa: engraçada
Mavero: seios
Panguando: vacilando
Catiolá: roubar
Rachando os bicos: rir alto

domingo, 7 de abril de 2013

SÓ EXISTE EM BOM DESPACHO



 Dias atrás, estava numa pastelaria na capital mineira e ouvi um diálogo engraçado. Uma senhora, de uns 70 anos vividos, pediu ao balcão um copo de garapa. A moçada, uns cinco jovens que ali atendiam aos pedidos de pastéis de carne, queijo, frango, reagiu em coro: - aqui não vende isso dona. Ela espantada exclamou com uma doçura e paciência que só a sabedoria da idade é capaz de mostrar: - naquele cartaz está dizendo “caldo de cana e dois salgados - R$ 3,00”. É isso que eu quero. Os balconistas ainda se olharam assustados com a palavra nova que nunca ouviram, mas foram espremer a cana no moedor. Olhei rindo da situação e puxei conversa: - este povo da cidade não conhece garapa. Só gente do interior. Ela balançou a cabeça concordando e sorriu. Um sorriso que me trouxe memórias de nossa terra.

Bom Despacho é cercada de histórias, de pessoas encantadoras, de palavras desconhecidas ao dicionário, de fatos e imagens que só existem neste canto de Minas. A passagem da garapa fez com que eu voltasse à infância e lembrasse de um amigo que vendia um bom caldo de cana na Av. Dr. Miguel Gontijo. Foi ali nas beiradas do antigo Gariffe que aprendi a gostar de garapa e depois beber o suco acompanhado de pastéis, de carne preferencialmente. E o vendedor, que antes era o Zé, pai dos meus amigos, marido da Maria, amiga da minha mãe, bibliotecária da Escola Chiquinha Soares, virou um mito. Foi apelidado pelo povo: - vou lá no Zé da garapa. E a cidade sorriso ganhou um Zé Garapa especialista em pizza. Só Bondês tem.

E há sabores que só esta terra possui. Temos uma doceira que faz uma das minhas sobremesas prediletas e, talvez, há muitos outonos, que só encontro doce de raiz de mamão na casa da Valmira, uma mulher de mãos abençoadas para a culinária. O cheiro que sai pelo portão é a melhor propaganda do doce caseiro que ela faz: goiabada, leite, cocada...Chego a ficar com água na boca apenas lembrando das colheradas destas iguarias tão especiais, que ela deixa degustar, antes de você querer comprar tudo. Todos os doces são bons, porém, já saí de Belo Horizonte feito uma grávida com desejo para deliciar somente um pouquinho do doce de raiz de mamão, da Valmira, que não vende em outras cercanias. Isso é da gente.

Outros gostos foram provocados com certeza pelas águas dos rios que banham a cidade. Quando criança me lembro bem do chup chup de amendoim da dona Duca, no bairro Jardim América. Do sorvete de abacaxi da inexistente Bola de Neve – este é incomparável a qualquer sorvete do mundo, nem as marcas mais famosas conseguem fazê-lo -, local onde sentávamos após a missa das dezenove horas para narrar a vida de quem ficava dando volta na Praça. Da geleia da dona Clarinda, na Avenida das Palmeiras. Do pastel do Ananias, que era vendido na galeria onde já foi a prefeitura. Do sanduíche aberto da Padaria Silva. Sabores que passaram, no entanto, ficaram marcantes na nossa cultura gastronômica.

Gastronomia que até virou ditado popular: quem experimenta do biscoito da Mariquinha e bebe da água da Biquinha, certamente voltará a Bom Despacho. Ainda estou em busca da receita desta quitanda que não conheci, mas se refrescar na bica das lavadeiras, isso é difícil dizer quem nunca fez. Ali é palco de histórias, de mentiras, de esconderijos amorosos, de brincadeiras infantis, de passagem para os preguiçosos desanimados a subir a Rua dos Expedicionários. Realmente, não dá para esquecer das escadarias deste nosso charmoso ponto turístico.

Fiquei em algumas lembranças e ainda vou escrever sobre várias delas nesta coluna. Para encerrar esta prosa, lembro de uma palavra tão mineira, mas que apenas em nossa região ela possui a forma feminina, e que encerra algumas conversas. Para tudo temos o Sá, que é o contrário de Sô. Coisas de gente cenosa (explico que é aquela pessoa que faz graça, que é engraçada, divertida, palhaça, para o caso de você não ser de Bom Despacho e não entender). Gente que só esta cidade tem. Adjetivo de quem sabe o que é garapa, que já comeu as quitandas da Mariquinha, matou a sede na Biquinha, experimentou o doce da Valmira, o pastel do Ananias e tem saudade da Bola de Neve e da dona Clarinda, que não deixou a receita da geleia, mas ficou marcada na memória de nossa história. Momentos que só existem aqui.

Compartilhe sua lembrança comigo no email julianoazevedo@gmail.com.

domingo, 24 de março de 2013

ÀS MULHERES DA MINHA VIDA!

Em fevereiro comecei a escrever para uma coluna no jornal Fique Sabendo, de Bom Despacho. Terei a missão de, quinzenalmente, falar das histórias da minha cidade. O primeiro texto é uma homenagem ao Dia Internacional das Mulheres. E compartilho com você esta experiência de ser um colunista, oportunidade que agradeço ao amigo e jornalista Valmir Rogério Vieira.

Igreja Matriz de Nossa Senhora de Bom Despacho


Uma boa prosa começa com um olá, com sorriso no rosto, dizendo um aconchegante bom dia, boa tarde, boa noite. Em seguida, pergunto simples: como vai? Eu espero que você esteja bem, e feliz, já que pra mim, é um prazer escrever e compartilhar pensamentos contigo. E depois de iniciada a cordialidade da conversa, partimos para as formalidades da apresentação pessoal, pra gente se conhecer melhor. Sou Juliano, da Dalva – que era do Irmã Maria -, do Júlio Precisão – aquele do Bar da Esquina-, irmão da Natália e do Jubileu. Sou aquele que já foi o Menino da Igreja, do Roda Viva, do Encontro de Fazenda, da Conferência São Luiz Gonzaga, do handebol, do Chiquinha Soares, do Miguel Gontijo. Amigo do Padre Jaime. Que já morou no Arraial dos Lobos, na Pracinha do Santa Ângela, que não saía da Praça de Esportes, que sonhava em trabalhar na Rádio Veredas.

Sou muitos na Cidade Sorriso, em cada canto conhecido pelos apelidos e adjetivos dados pela família, pelos amigos, pelas rodinhas. Porém sou o mesmo menino que decidiu aos 9 anos de idade ser jornalista para contar histórias. Para falar verdades, defender ideais, viajar e desbravar culturas, que queria ser como os repórteres Glória Maria, Francisco José e Carlos Dornelles, em suas andanças pelo mundo. Atualmente, ando em Belo Horizonte, olhando para nosso Estado em busca de notícias do jeito que nós mineiros gostamos. Sou um contador de casos, trabalhando como Chefe de Redação da TV Alterosa e, também, como escritor, de livros, e de um blog na internet. Meus alunos da Faculdade INAP dizem que tenho um exemplo para cada acontecimento, uma história pra cada lição. O que eles dizem é real: as metáforas e os “causos” fazem parte do meu cotidiano.

Por isso, estarei aqui neste espaço para ser assim, um sujeito de prosa, um companheiro na hora do café, um bom-despachense amigo para trocar ideia, falar da nossa terra, da nossa gente, das coisas que gostamos e que nos dão orgulho. E eu me sinto orgulhoso de ser também conhecido como aquele cara de Bom Despacho, onde você é filho de professor ou de PM.

Apresentações feitas, e pra estender nosso papo, gostaria de prestar uma homenagem às mulheres. São tantas! Tantas que devem ser lembradas em 8 de março, na comemoração do Dia Internacional da Mulher: professoras, amigas, conhecidas, personalidades e profissionais de todas as áreas, as parentes, sobretudo, as tias e as primas, e as mães de todas as listadas aqui. Mas eu devo respeito e consideração a algumas mulheres guerreiras, matriarcas, que estão sempre à frente do tempo, educadoras, sábias, que estão no meu sangue, para que eu pudesse ser tudo o que sou ao fazer uma descrição no início da nossa conversa.

Sou grato à minha mãe pela energia da vida, por me ensinar valores, por me proporcionar a realização de sonhos, por ser a mulher mais engraçada e cativante, seja nos bailes do Clube, nos jogos de buraco, nas festas em família, nas viagens que fazemos juntos. E ela só é assim por causa da mãe que tem: Marieta Cardoso, uma avó fofa, amável, de um coração pulsante, que tem uma vitalidade admirável, uma serenidade nas palavras de conforto, uma sabedoria incrível, uma risada gostosa. E que tem uma qualidade ímpar e que passou pra mim: ela gosta de conversar, e muito. À minha irmã, cúmplice desde a infância, amiga de verdade, que me deu sobrinhos lindos, que é um touro meigo, que luta pelo que quer, e que constrói histórias exemplares de garra e ousadia. À memória da minha avó Maria, que fazia a melhor rosquinha de nata e que transformava um frango de granja no prato mais requintado da culinária mineira. Por sua firmeza nas atitudes, nas opiniões corretas e calculadas, uma mulher que tinha coragem para demonstrar afeto e doçura para fazer da adversidade um ensinamento. Nem oito, nem oitenta, apenas justa.

Sou elas: Dalva, Marieta, Natália, Maria. E sou também fruto de uma mulher poderosa: Nossa Senhora do Bom Despacho, que nos protege na fé, no amor, na esperança de um mundo melhor, para as mulheres e também para os homens de nossa encantada cidade. 

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