terça-feira, 28 de agosto de 2012

UNIFORMES: MINHA CANÇÃO PREFERIDA

Kid Abelha em 1983 / Foto: Site Anos 80

Na busca de identidade, as pessoas se transformam em personagens criados pela imaginação ou pelos estereótipos sociais, mas também naqueles arquitetados por tribos incomuns como os emos, neogóticos, punks, hipsters...Sempre há um jeito de se enquadrar num modelo. Basta vestir a farda e sair batendo continência na rua.

Nestes dias, ouvi um comentário sarcástico: veste de preto, pinta a boca com o batom mais escuro, coloca correntes pelo corpo, esfumaça o olho para encontrar com a turma na Praça da Savassi (local conhecido na capital mineira, onde jovens freqüentam com seus coturnos, calças e camisas de roqueiros e acessórios espalhados pelo corpo), mas quando chega em casa, veste o pijama de moletom, toma sopa feita pela mamãe e assiste à novela das nove. Ou seja, a casca desmancha e o personagem volta a ser um sujeito normal.

Desde adolescente, quando me apaixonei pelo Kid Abelha, apesar de gostar de várias músicas, eu escolhi uma que me identificasse no meio da multidão. Eu era diferente dos meus amigos, dos padrões da minha família, dos conceitos católicos pregados na pequena Bom Despacho, da vida daqueles que me cercavam. Sempre soube que minha identidade era diferente. Contudo, para me enquadrar e ser aceito socialmente, eu me tornei um personagem adequado às normas.

Menino da igreja, como fui conhecido após organizar a missa das 19 horas de domingo durante 10 anos...Rebelde sem causa, ao andar vestido de preto dos pés a cabeça, acompanhando banda de baile pelas cidades vizinhas...Aluno nota 10, ao tirar boas notas na escola...e tantos outros, que somente atores experientes podem interpretar. Sim, é isso mesmo, em cada momento, eu vestia uniformes. De estudante, de atleta do vôlei, da natação, do handebol, de cristão, de escoteiro, de funcionário da escola de inglês, de garçom do bar do meu pai, do engomadinho filhinho de mamãe...são tantos. Ah! Como são.

Talvez por isso a minha música predileta do Kid Abelha se chame UNIFORMES, a faixa nove, do disco Educação Sentimental, lançado em 1985, o segundo disco do trio. De composição do ex-Kid, Leoni, e de Léo Jaime, a canção fez muito sucesso, mas depois que Leoni se separou da banda e de Paula Toller, Uniformes saiu do repertório e das coletâneas. Não sei o motivo real da exclusão da música, no entanto, percebemos que os dois “trocaram elogios” em inúmeras letras, assim como o ex-casal de cantores da Era do Rádio, Dalva de Oliveira e Herilvelto Martins, fizeram no passado. Leoni pode ter pedido a guarda da filha e ganhou. O certo que Paula não canta mais, só nos discos.

A letra diz tudo o que penso sobre mim, o que sou, meu caráter, minha formação. Brinco que se alguém quiser me conhecer, basta interpretar os versos da melodia. Sou assim: um sujeito que se veste de diferentes formas, que ouve os mesmos discos, que lê livros que poucos sabem que existem, que possui heróis incomuns.

E se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais. (trecho de Esotérico, de Gilberto Gil, música também interpretada pelo Kid Abelha). E eu sou feito à semelhança Dele. Este é meu melhor personagem. O meu mais adequado uniforme. 

A letra está aqui:
Eu ouço sempre os mesmos discos/ Repenso as mesmas idéias / O mundo é muito simples / Bobagens não me afligem / Você se cansa do meu modelo /Mas juro, eu não tenho culpa /Eu sou mais um no bando /Repito o que eu escuto /E eu não te entendo bem /E quantos uniformes ainda vou usar /E quantas frases feitas vão me explicar /Será que um dia a gente vai se encontrar /Quando os soldados tiram a farda pra brincar /A minha dança, o meu estilo /E pouco mais me importa /Eu limpo as minhas botas /Não sou ninguém sem elas/ Você se espanta com o meu cabelo/ É que eu saí de outra história/ Os heróis na minha blusa/ Não são os que você usa/ E eu não te entendo bem

Ouça aqui!

4 comentários:

  1. Gostei muito do seu texto, muito bom, me veio uma nostalgia reflexiva sobre mim. Valeu

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    1. Oi Marcelo, muito obrigado pela visita. Obrigado pelas palavras. E espero que as minhas palavras tenham te trazido lembranças felizes.

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  2. Perfeita sua reflexão sobre a letra, gosto muito da música mesmo sendo nascido em 88 vejo que as boas músicas são daquela época. ADSUMUS

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