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sexta-feira, 22 de maio de 2015

DA PANELA À TELEVISÃO: O CARAMELO DA MARIETA


Minha avó faz uma bala de caramelo que é uma mistura de sabores e de sentimentos. Uma receita guardada na memória dela, mas também nos desejos íntimos de quem sempre espera o doce ser servido nos encontros familiares. Afinal, se tem, ou se aconteceu, alguma comemoração, essa sobremesa sempre está no registro das melhores lembranças. Todos os parentes e amigos da família reconhecem que o doce tem o toque especial da dona Marieta. Ninguém consegue reproduzir o resultado que ela alcança, mesmo quando a própria ensina o passo a passo dos ingredientes. Modesta, minha avó revela que aprendeu a fazer a bala com uma amiga, a Neném, antiga moradora da rua São Paulo, falecida há alguns anos.
Reza a lenda que Neném era uma das melhores doceiras da cidade. Sempre cheia de encomendas - pedidas, frequentemente, pela minha avó -, ela tinha a “mão boa” para o tacho. Caprichosa, acertava facilmente o ponto do doce, contudo, desistia das clientes por causa de problemas de saúde que a perseguiam com o passar da idade. Numa das ocasiões, chateada, desabafou suas lamúrias na dona Marieta, quando essa foi buscar uns docinhos prometidos para o fim de semana. Tocou a freguesa, alegando falta de tempo e chamando-a de preguiçosa: “por que você mesma não vai esquentar a barriga no fogão? É muito fácil fazer o caramelo, deixe de preguiça”. Prontamente, e com sua peculiar esperteza, minha avó respondeu: “só você me informar qual é a receita”.
Tempos depois, Neném aparece no portão da matriarca dos Cardoso para pedir satisfação por causa da perda e do sumiço da cliente, que era tão fiel. “Sumi porque você me ensinou seu segredo”, justificou o desaforo, acontecido há mais de meio século, quando minha avó tinha uns 40 anos de idade. Daí em diante, são muitas festas, reuniões, domingos, datas comemorativas, em que o caramelo é esperado ansiosamente após os salgados serem servidos. Enrolados em papel de seda, de cores variadas, os doces são cobertos por açúcar refinado. Por fora, uma casquinha dura, por dentro, um puxa-puxa de sabor indescritível, numa mistura de leite, mel, chocolate e ingredientes que não estão anotados em nenhum caderno. Só na cabecinha branca da mãe da minha mãe.
Essa é apenas uma das muitas histórias contadas por dona Marieta sobre o seu prazer de cozinhar. Ela gosta de fazer carne de panela com mandioca, spaguetti ensopado, galinha cozida com quiabo, mingau de fubá, bolo, broinha, pão de queijo. E, claro, caramelo, que de tão espetacular, vai até aparecer na televisão. 
Minha avó é umas das personagens entrevistadas pelo programa Viação Cipó, que é exibido aos domingos pela TV Alterosa. Ela conversará sobre casos da vida, sobre o município, sobre os filhos, netos e bisnetos, e a importância do caramelo, símbolo da nossa união familiar e das nossas mais significativas lembranças. Já adianto que, infelizmente, ela não revelará a receita para as câmeras, porém a sobremesa estará servida à mesa para degustação dos olhos de quem assistir à atração.
Bom Despacho será destaque do programa de TV no dia 24 de maio, em virtude do aniversário da cidade, em 1º de junho. Lá, Minas Gerais e o mundo irão conhecer a história da Cidade Sorriso, a Biquinha, o Engenho do Ribeiro, a Cruz do Monte, a Língua da Tabatinga, o nosso povo, a nossa cultura, entre muitas outras curiosidades e, sobretudo, nossas virtudes e nossos valores. E, obviamente, o imperdível caramelo da dona Marieta.

Não perca: Viação Cipó, na TV Alterosa, domingo, 24 de maio, às 10 horas da manhã, na TV que o mineiro vê.

domingo, 25 de janeiro de 2015

A MÚSICA DOS SONHOS


Atrás da imponente cruz, no topo da Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, a luz avermelhada do sol dava seus últimos acenos. O silêncio do crepúsculo era quebrado pelo ritmo das ferraduras que se reuniam em frente à Mercearia Dona Zulmira. Peões, fazendeiros, donas de casa, a meninada, os moradores da Passagem sorriam em cumprimentos aos velhos conhecidos, animados para a festança que logo transformaria a calma do distrito em acordes de violão, de sanfona, de pandeiro. Nas rodas, a conversa tagarelava o preço do boi, a troca injusta dos cavalos, o sumiço das galinhas lá na beira do ribeirão, as divisas de terras entre os herdeiros da despedida do senhor fulano que era uma alma boa. A fragrância de açúcar queimado estava na barraca de maçã do amor, nas cores vivas do algodão-doce, no cricri de amendoim. Políticos rivais debatiam ao lado de doses da cachaça do alambique do Zico. A festa era esperada e comemorada, peculiar até para quem não conseguia deixar suas casas.
Detrás do balcão, Zezé apaziguava os desafetos servindo cerveja, contando casos, dando risadas. Aos amigos, distribuía tira-gostos quentinhos, diretos da panela, com o mesmo sorriso cativante. Ponderado nas palavras, sereno nos gestos, agradava aos Coelhos, aos Rodrigues, aos Cardosos, aos Azevedos. Todos com um grau de parentesco, mas com suas pequenas diferenças familiares. Afinal, essas coisas eram normais naquela rotina, que foi alterada pelo mestre de cerimônia que testava o som do alto-falante. Ele convidava os solteiros para a dança respeitosa com as moças casamenteiras.
Lá na fazenda, um quilômetro distante da confusão, os filhos mais velhos já estavam de banho tomado. Os mais novos cochilavam, dividindo o cobertor. A chaminé expulsava muita fumaça, pois Marieta abastecia o fogão à lenha para preparar sua especialidade à espera do marido. Francisco ainda apartava as vacas no pasto, pensando na carne cozida que teria na janta. Arroz, feijão, couve, moranga, estava quase tudo pronto. A matriarca dos Cardoso de Azevedo correu para o chuveiro para aproveitar a água aquecida pelo calor dos gravetos que esquentavam a serpentina de cobre, instalada artesanalmente na parede da cozinha. Ela queria estar pronta para ouvir a cantoria que vinha lá de cima, do centro do povoado. Apaixonada por música, sabia a letra de todas daquele repertório. As crianças deveriam ficar em silêncio para que a voz do locutor entrasse sem ruído pelos cômodos. Algo especial iria acontecer naquela noite.
 O amplificador reproduziu o chiado do microfone seguido da narração: “para você que gosta da dupla Pedro Bento e Zé da Estrada, teremos um momento inesquecível. Romualdo Cardoso oferece com muito carinho a música Paraguaia para sua querida irmã Marieta, que está nos ouvindo lá de sua casa. Essa é uma das suas canções prediletas. Um abraço Marieta”. As primeiras notas ecoaram. O coração da jovem estava emocionado com a homenagem. Ela cantou junto: “paraguaia, amanhã eu vou parti/ Na despedida eu te peço pra não chorá/ Só peço a Deus pra na viagem eu ser feliz/ Que argum dia vortarei pra te buscá.” Chorosa e pensativa, perdeu a segunda estrofe, porém entoou mais alto os seguintes versos: “vou-me embora pra revê meu véio amigo/ Já não suporto a saudade de meu pai/ Meu coração eu deixarei aqui contigo/ porque eu sei que não esqueço nunca mais.”

As estrofes, as palavras, as lembranças...O amor entre os irmãos está enaltecido na memória. 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

PARABÉNS MADRINHA MARIETA



Ela nasceu e foi registrada no cartório algum tempo depois. O pai não se lembrava da data correta e ficou aquele mistério para a certidão de nascimento. Oficialmente, são 91 anos bem vividos, já que a identidade marca o ano de 1922, mas pairam dúvidas se a nonagenária realmente passou dos 80. Afinal, ela afirma convicta que neste ano vai fazer só 89. Com sua vivacidade é fácil entender porque ela diz que tem “apenas” estas “poucas” primaveras. Muita gente acredita que a velhinha tem é 87. A confusão é explicada: quando criança ganhou os documentos dois anos depois de vir ao mundo. Porém, ainda não sabemos se este período foi uma perda ou um ganho. Certo é que no dia 21 de setembro, na véspera da estação que dá cores variadas à vida, uma flor rara brotou. Marieta, batizada com o sobrenome do pai, Cardoso, passou a existir para encantar muitos jardins.

Minha avó é especial por inúmeros motivos: mulher, mãe, esposa, bisavó, uma senhora fiel às tradições familiares. E agora completa mais um ano de experiência, com seu humor refinado, uma alegria única e uma sabedoria invejável. Digna de muitas celebrações, ela merece vários buquês. E a providência divina se encarregou de lhe conceder estas inúmeras primaveras. E os privilegiados somos nós que convivemos com esta pessoa carismática, sempre cheia de carinho com sábias palavras de conforto.

Como ela é uma contadora de histórias, “conversada”, como dizem nas rodas sociais, uma enciclopédia de piadas e causos mineiros, vou homenageá-la contando uns segredos para você que lê meu blog. Afinal, dona Marieta merece uma prosa nesta data para reforçar o quão importante ela é para mim, nossa família, os amigos dela e a minha querida Bom Despacho, local que ela viu crescer.

A infância foi vivida na Passagem, um distrito da cidade sorriso. Por lá que se casou com o saudoso Chico Purcino, da família Azevedo. Tiveram filhos. São tantos netos e bisnetos. Turma que ela reuniu numa tarde, em sua casa no bairro Santa Ângela, com bolinhos de chuva, café preto, e um recado incisivo: a matriarca da família Cardoso de Azevedo, não queria ser chamada de vovó. Sentados na cozinha, os netos mais velhos cumpriram o pedido, que foi passado para os primos que vieram depois. Ela queria ter outra participação em nossas vidas, por isso, carinhosamente nossa vovó é também nossa madrinha. E assim a gritamos no portão, chamamos ao telefone, escrevemos nos cartões de aniversário.

Madrinha Marieta é decidida, guerreira, criou os filhos com mãos firmes, os netos com alguns mimos e, agora, os bisnetos aproveitam do colo aconchegante. Admirável é a sua fé em Cristo. Uma católica que reza o terço diariamente, devota de Nossa Senhora Aparecida, de São João Batista, do Padre Libério. Nas datas comemorativas ela faz questão: a família se encontra para a oração, o jantar, o almoço de domingo. Mas se não tiver comemoração, não tem problema, visitá-la é uma festa. Dona Marieta sabe o que cada um gosta, principalmente, as quitandas que ela tem dedos de fada para fazer.

A primavera traz a beleza. Trouxe esta mulher maravilhosa, que exala simpatia quando compartilha suas lembranças. Bonita em sua simplicidade. Vaidosa como toda flor...querida e amada. A ela, faço uma reverência e desejo a felicidade plena em cada momento dos anos que virão. Parabéns pela vida, Madrinha Marieta.

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